Beth vai à Bahia de todos os sambas

Cantora se apresenta no Sesc Pinheiros, interpretando clássicos de Caymmi, Caetano, Gil, Riachão, Batatinha, Assis Valente

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 00h00

Quando se canta o samba da Bahia todo mundo bole. E a carioca Beth Carvalho vem bulir agora com os paulistanos, louvando as origens e ramificações da ginga sambadeira da terra de Dorival Caymmi, do lundu ao samba-reggae. Tendo a exuberante baiana Mariene de Castro como convidada, ela apresenta hoje e amanhã no Sesc Pinheiros o show do CD/DVD Beth Carvalho Canta o Samba da Bahia (selo Andança/EMI). O projeto, registrado ao vivo no Teatro Castro Alves em 2006, é dedicado a Caymmi, cujos clássicos vêm se juntar a outras belezas e alegrias de Batatinha, Assis Valente, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Riachão, Roque Ferreira, Jota Velloso, Roberto Mendes, Walter Queiroz e Edil Pacheco, entre outros. Como Bahia e samba são sinônimos de festa, Beth esteve à vontade em meio aos astros baianos (Caetano, Gil, Mariene, Mendes, Carlinhos Brown, Riachão, Armandinho, Maria Bethânia, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, entre outros) e o carioca Danilo Caymmi, representando o pai. Foram eles os convidados para dividir o palco com ela quando gravou o DVD.O projeto inicial era fazer um apanhado do samba-de-roda. ''''Depois resolvi ampliar. A gente não pode negar que as grandes bases são o samba-de-roda e a chula, mas há outros compositores que partiram para outro tipo de samba que também ficou sendo o samba da Bahia'''', diz a cantora. Dois bons exemplos são Verdade (Nelson Rufino/Carlinhos Santana) e Samba pras Moças (Roque Ferreira), que se tornaram clássicos instantâneos na voz do carioca Zeca Pagodinho e estão no repertório do show de Beth. ''''São dois típicos sambas baianos. O Ouro e a Madeira (Ederaldo Gentil) e Brasil Pandeiro (Assis Valente) são mais próximos do samba carioca, mas ainda assim têm características diferentes.''''Beth está com os baianos no que diz respeito à origem do gênero musical que virou identidade nacional. ''''O samba nasceu na Bahia mesmo, porque, segundo Riachão, o Brasiiil nasceu na Bahia. O samba nasceu no mar, como diz Carlinhos Brown, veio nas galeras'''', diverte-se a cantora, imitando as falas e o sotaque dos dois. ''''Mas realmente nasceu na Bahia porque Tia Ciata era baiana, né? Ela trouxe o samba pro Rio de Janeiro. Nasceu lá, mas o desenvolvimento se deu aqui, não tenha dúvida.''''Em Desde Que o Samba É Samba, que a cantora gravou em duo com o autor neste projeto, Caetano fala do ''''grande poder transformador'''' do samba, pai do prazer e filho da dor. Beth exulta: ''''É o discurso que eu fiz a vida inteira. O samba ainda não nasceu, ainda não é reconhecido o suficiente. E ele realmente é o grande poder transformador, porque é revolucionário, porque agrega, é democrata; você entra numa roda de samba, não tem presidente da República nem gari, está todo mundo junto. As pessoas ficam muito mais humanas quando começam a freqüentar o samba'''', exemplifica. É por aí que ele ''''revoluciona a história do País, os costumes, as atitudes, faz uma quizumba tremenda'''', reforça Beth. ''''Esse poder ele tem mais do que qualquer outro gênero, é a crônica do dia-a-dia do brasileiro. Ele é tão poderoso e tem um ritmo tão exuberante, que também é usado por oportunistas que fazem dele algo supercomercial. Aí fica sem controle.''''Como uma espécie de nave-mãe, aglutinadora do samba nacional, incentivando e cultivando novos e antigos sambistas, Beth já fez um álbum antológico dedicado ao samba de São Paulo em 1993. Nem daquela vez nem agora fez distinção no modo de interpretar - o que muda é o jeito de tocar. ''''Canto o samba baiano como canto o carioca. A minha maneira de cantar é natural, porque tem o sentimento, eu entendo aquilo, entra na minha alma.''''O coração de Beth continua a bater pela Mangueira, à parte o vergonhoso incidente do carnaval de 2007, quando foi impedida pela diretoria da escola de samba de sair num carro alegórico na Sapucaí. Um dos patrimônios da Estação Primeira, Beth não ia desfilar no próximo carnaval, mas acabou aceitando o convite da Viradouro. ''''Na Mangueira não ia sair mesmo por causa do que aconteceu no ano passado. Essa diretoria, que é a mesma (só o vice virou presidente), me deve desculpas sérias, na quadra, com toda a pompa, com todas as cerimônias'''', diz.''''Este ano só ia assistir ao carnaval e torcer pela Mangueira, porque é a minha escola. Mas aí o Paulo Barros, da Viradouro, me convidou para sair no desfile homenageando os 100 anos de Cartola, num carro chamado As Rosas não Falam, onde vai ter o Cartola e eu. Na hora não aceitei, mas quando ouvi o samba, não resisti. É muito lindo, me emocionei. Há muito tempo a gente não se emociona com um samba-enredo. Vai ser uma homenagem linda que vou prestar ao Cartola e à Mangueira.''''

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.