Berlim sob a crise

Com tema mais que atual, o capitalismo, o filme The International, de Tom Tykwer, abre hoje em pleno inverno europeu, a 59.ª Berlinale, que nesta edição celebra a carreira do compositor Maurice Jarre

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

05 de fevereiro de 2009 | 00h00

No ano passado, os caminhos de ambos cruzaram-se no Festival de Berlim. O diretor Costa-Gavras presidia o júri que outorgou o Urso de Ouro ao filme brasileiro Tropa de Elite, de José Padilha. A atriz Tilda Swinton participava da competição com Júlia, com direção do francês Erick Zonca, que integrava a competição. Este ano, as posições invertem-se, ou quase. Tilda agora preside o júri, mas não terá de julgar o filme de Costa-Gavras, que fará o encerramento da 59ª Berlinale. Éden à L?Ouest será exibido, fora de concurso, dia 15. O próprio Padilha estará de volta ao festival, mas, desta vez, numa seção paralela, Panorama Dokument, que vai exibir seu documentário sobre a fome no Brasil (e no mundo), Garapa.Com Cannes e Veneza, Berlim integra a trinca dos maiores festivais de cinema do mundo. E é o primeiro a realizar-se, todo ano, em pleno inverno europeu, quase sempre sob muito frio e muita neve. A paisagem está pronta para o festival que começa hoje, apresentando, fora de concurso, o thriller The International, do diretor alemão Tom Tykwer, com Clive Owen e Naomi Watts. O filme trata de dupla de agentes que investiga as atividades supranacionais de um poderoso banco. Segundo o diretor artístico Dieter Kosslick, The International vai iniciar a Berlinale de 2009 sob o signo da atualidade. Com a economia mundial tentando juntar os cacos da crise do ano passado, eis aí um filme que discute o capitalismo como apátrida e todo-poderoso - tão poderoso que o tal banco pode eliminar concorrentes e clientes indesejáveis, sem que nada disso afete a paz e credibilidade de sua cúpula.Cerca de 19 mil profissionais de 120 países, incluindo 4 mil jornalistas, estarão em Berlim para o festival, que dura 11 dias. Mais de 200 mil ingressos já foram vendidos, fora todos os outros cedidos gratuitamente a convidados de todo o mundo. Para a mídia, a menina dos olhos da programação é a mostra competitiva - 18 filmes foram selecionados para a disputa do Urso de Ouro deste ano, mais oito que vão passar fora de concurso na mostra principal. Os olhos da imprensa estarão atentos para essa verdadeira parada de grandes filmes internacionais, mas nenhum crítico ou jornalista que se preze quererá perder o que estará ocorrendo em outras duas mostras paralelas. Panorama concentra o maior número de produções independentes e filmes considerados de arte. O Forum é o território por excelência da experimentação, e por isso os especialistas dizem que o futuro da linguagem e da política do cinema, em Berlim, passa por aqui. Outros eventos são a mostra de filmes infantis, a competição de filmes gays, a mostra de cinema alemão, o Talent Campus (com atividades para estudantes de cinema), a retrospectiva, as homenagens e o European Market, o mercado do filme europeu.A retrospectiva deste ano, com o título Bigger than Life, contempla o 70 mm, exibindo versões restauradas de grandes filmes de Stanley Kubrick (2001, Uma Odisseia no Espaço) e David Lean (Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A Filha de Ryan e Passagem para a Índia). O Urso de Ouro especial, que celebra a carreira de um grande artista, será atribuído ao compositor Maurice Jarre, sem os quais os épicos intimistas de mestre Lean não seriam a mesma coisa. Tente imaginar o Doutor Jivago sem o acompanhamento do tema de Lara. Não dá. Dois grandes diretores, um francês e um português, vão receber a Berlinale Kamera, por sua contribuição à arte e à indústria do cinema. Claude Chabrol e o centenário Manoel de Oliveira levam a Berlim seus novos filmes para exibir na homenagem - respectivamente, Bellamy e Singularidades de Uma Rapariga Loira.Em CompetiçãoAlle Anderen, de Maren Ade (Alemanha)Sturm, de Hans-Christian Schmid (Alemanha)Rage, de Sally Potter (Reino Unido)Cheri, de Stephen Frears (Reino Unido)Katalin Varga, de Peter Strickland (Romênia, Reino Unido, Hungria)The Messenger, de Oren Moverman (EUA)Happy Tears, de Mitchell Lichtenstein (EUA)Ricky, de François Ozon (França)In the Electric Mist, de Bertrand Tavernier (França, EUA)London River, de Rachid Bouchareb (Argélia, França, Reino Unido) Mammoth, de Lukas Moodysson (Suécia, Alemanha, Dinamarca)Lille Soldat, de Annette K. Olesen (Dinamarca)Tatarak, de Andrzej Wajda (Polônia)Gigante, de Adrián Biniez (Uruguai, Alemanha, Argentina)Darbareye Elly (About Elly), de Asghar Farhadi (Irã)Mei Lanfang, de Chen Kaige (China)La Teta Asustada, de Claudia Llosa (Peru, Espanha)My One and Only, de Richard Loncraine (EUA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.