Bentinho atormentado

Michel Melamed estréia como ator de TV na pele do personagem de Machado de Assis que sofre com os 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada' da bela Capitu

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2008 | 00h00

Dom Casmurro fez o já magro Michel Melamed perder 21 quilos em três meses apenas. O diretor Luiz Fernando Carvalho queria que o personagem-título e narrador do romance de Machado de Assis tivesse aspecto precário e mais envelhecido do que o ator, que tem 35 anos. Melamed, também apresentador, escritor, dramaturgo e músico, será o Bentinho da próxima minissérie da TV Globo, Capitu, com estréia em dezembro.Ao vê-lo quase esquálido no hoje extinto Corte Cultural, seu ex-programa na TV Brasil, o público levou um susto. "Um monte de gente perguntava se eu estava doente. Não deixava de ser uma doença, mas não era mortal, era vital", diz, revelando a intensidade com que abraçou seu primeiro trabalho como ator na TV.Passados dois meses do fim das gravações, no Rio, o peso já foi quase todo recuperado, mas Bentinho continua em Melamed. Assim como o entusiasmo de estar levando "um dos livros mais importantes do mundo" a pessoas que não necessariamente o leram ou lhe deram a atenção devida. "Um dos estímulos para estar envolvido nesse projeto é, quem sabe, participar de uma nova imagética para esse clássico", conta o ator, que o conheceu na escola, o releu várias vezes e, depois de ser convidado por Carvalho, a quem não conhecia - mas muito admirava - foi tomado por ele de forma avassaladora (Melamed se diz um "apaixonado", para quem vale sempre o "tudo ou nada"). Neste mergulho, ele teve o auxílio de um treinador tarimbado, o mineiro Rodolfo Vaz, prêmio Shell de melhor ator de teatro do ano passado por Salmo 91 e que, na TV, já tinha trabalho com Carvalho no elenco de Hoje É Dia de Maria. Vaz ajudou Melamed a se transformar em Dom Casmurro - a ponto de o jovem ator ter-se pego fazendo a voz de Bentinho e praticando sua fina ironia até fora das gravações. "Nosso trabalho foi o de encher a mochila dele de vocabulário; não foi o de preparação de ator, como se faz normalmente", explica Rodolfo Vaz. "Fizemos muitos exercícios para chegar às intenções, às colorações das cenas." A dupla passou três meses e meio grudada, por vezes durante dias inteiros, o que foi muito importante, diz Vaz, em se tratando de um ator como Melamed, que tem trabalhado, no teatro, em textos próprios (ele vem da muito comentada Trilogia Brasileira, composta pelas peças Regurgitofagia, de 2004, Dinheiro Grátis, de 2006, e Homemúsica, de 2007).A Capitu que aflige Melamed é Maria Fernanda Cândido, que já emprestou seu olhar a ela no filme Dom (2003), de Moacyr Góes. Ela é o único rosto conhecido do "triângulo". Já a Capitu pela qual Bentinho se apaixona é encarnada por Leticia Persiles, uma das estreantes do elenco, assim como Pierre Baitelli, o Escobar, e César Cardadeiro, o Bentinho jovem. "Ensaiamos e preparamos tudo juntos, como se fosse teatro", lembra Letícia, escolhida pelo diretor quando este leu uma reportagem sobre sua banda, a Manacá. Em seguida, ele foi conhecê-la ao vivo, num show do grupo, e, no palco, o que viu foi uma atriz. Dona de olhos verdes tão encantadores quanto os de Maria Fernanda, a jovem Letícia, que tem 25 anos e faz uma menina de 14, vasculhou seus guardados para reviver as sensações de garota. "Capitu tem uma sensibilidade muito aflorada. Essa coisa animal nela, de fêmea, vem desde a adolescência da personagem."

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