Becky Bloom e o consumo em tempos de crise brava

Nada como Hollywood para por as coisas em perspectiva

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

16 de abril de 2009 | 00h00

Logo na abertura de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, a protagonista, interpretada por Isla Fisher, recebe de seu futuro chefe, editor de uma revista especializada em economia (Hugh Dancy), uma lição sobre o custo real de um produto e o preço que o mercado está disposto a pagar por ele. O cara logo percebe o potencial da moça e a transforma em colunista, com o sugestivo nome de ?A garota da echarpe verde?. Como se trata de uma comédia romântica, eles se apaixonam e ele é um milionário que está querendo fazer carreira por conta própria, longe da mãe socialite. O problema é que Becky é ?shopaholic?. Ela não resiste a um shopping.O consumismo desenfreado tem origem num trauma de infância, que faz com que a heroína viva (muito) acima de suas posses, gastando com 12 cartões de crédito. O problema do cartão é que um dia chega a conta - e muito mais cara do que Becky pode pagar. Delírios de Consumo tem algo de Legalmente Loira. O filme baseia-se no livro de Sophie Kinsella que virou best seller internacional. Nada mais politicamente incorreto do que ser como Becky, principalmente neste momento de crise, em que as economias foram atingidas por um tsunami - num país nosso conhecido foi apenas uma marolinha.A crise estourou quando o filme já estava pronto. Mas, claro, de forma moralista, Hollywood já havia dado à história a estrutura correta. Becky aprende que objetos não substituem relações, zera as contas, ganha seu príncipe - alguma dúvida, já que se trata de comédia romântica? -, mas o bom do filme e do diretor J.P. Hogan é que ambos sabem em que mundo vivemos. Se a essência da globalização é o mercado, portanto o consumo, pode-se discutir se o Estado tem de ser forte ou brando, se deve (ou quando deve) intervir. Mas negar o consumo é negar o mundo. A pirueta final recoloca as coisas em perspectiva.

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