Beatriz Milhazes pode bater o recorde entre os brasileiros vivos

Há quem aposte que O Mágico ultrapasse US$ 1 milhão, valor inédito entre nacionais

Camila Molina e Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2008 | 00h00

É grande a expectativa no mercado de arte brasileiro em relação ao leilão de arte contemporânea que a tradicional casa Sotheby''s vai realizar hoje em Nova York. Entre obras de Yves Klein, Barnett Newman, Anish Kapoor e Andy Warhol estará no prelo a tela O Mágico, de Beatriz Milhazes, com preços iniciais de US$ 250 mil a US$ 350 mil. A pintora carioca é das poucas artistas brasileiras a conseguirem alcançar altos valores no mercado internacional de arte - aliás, a valorização de suas obras ocorreu, do início dos anos 2000 para agora, do circuito estrangeiro (principalmente, americano) para o brasileiro - e, por isso, ela já está sendo considerada a primeira brasileira a bater o recorde de preço entre os artistas vivos (definição baseada apenas em se tratando de leilões). ''Minha estimativa é que a obra dela possa ter seu preço triplicado hoje no leilão da Sotheby''s'', diz Jones Bergamin, galerista, investidor e diretor da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, ele mesmo interessado em entrar na disputa pela tela da artista. Curioso que ontem, em leilão da Christie''s, em Nova York, uma tela de Lucian Freud foi vendida a US$ 34 milhões, transformando-se no maior valor já pago pela obra de um artista vivo.A presença do quadro de Beatriz Milhazes no leilão de hoje é apenas um dos indícios de que o mercado brasileiro de arte está passando por um momento de grande efervescência e deve ser vista com cautela. Afinal, bons resultados em leilões decorrem de fatores muitas vezes imponderáveis. ''É um jogo cujas regras não estão nas mãos de ninguém'', afirma Marcia Fortes, sua galerista no Brasil - Beatriz ainda é representada por galerias em Londres, Berlim e Nova York. Apesar de não querer fazer especulações, ela confirma que o interesse é grande e tem ''muita gente faminta'' atrás. ''É uma tela ótima, excelente, de uma fase muito procurada, e está com estimativa relativamente baixa. Acredito que vá, sim, superar essa estimativa'', diz a galerista.Se o mercado secundário (como se chamam as vendas em leilão) não é suficientemente estável para medir a temperatura do mercado e os resultados aí devem ser vistos com cautela, as grandes vendas institucionais, vinculadas a exposições de destaque, ajudam a mostrar que a valorização dos grandes nomes da arte brasileira é uma realidade. No início do ano, José Damasceno realizava uma grande individual no Reina Sofia, de Madri, e desde o começo o museu sinalizou o interesse em adquirir peças suas. As negociações para a compra de duas grandes esculturas - Primer Motin e Taza - por US$ 165 mil estão quase concluídas.Cildo Meireles, que desponta como um dos mais valorizados artistas brasileiros vivos, inaugura no mês de outubro uma grande exposição na Tate Modern, em Londres. A instituição, como afirmou a galerista do artista, Luisa Strina, já demonstra interesse em adquirir a obra Babel, uma grande escultura sonora, construída com centenas de rádios de pilha. ''Mas ainda não há um preço fechado'', diz a galerista - Cildo Meireles já tem uma série de outras obras adquiridas pela Tate, como a instalação Eureka e trabalhos de sua série Inserções em Circuitos Ideológicos, de 1970.São diversos os exemplos de aquisições institucionais dessa importância, exemplo que infelizmente não encontra eco no Brasil. Por aqui, cada vez mais os museus são vistos como meros recipientes de mostras temporárias e totalmente incapacitados de manter seus acervos atualizados com a produção artística de seu tempo. A venda, há alguns meses, da coleção de Adolpho Leirner para o Museu of Fine Arts de Houston, nos EUA, indica essa falta de interesse ou de condições para criar e preservar esse patrimônio no País. ''Como agente desses artistas, gostaria que nossos netos pudessem ir a um museu e ver essa produção'', lamenta Marcia Fortes.

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