Batuta estelar

Às vésperas de iniciar turnê pela América Latina, o maestro Zubin Mehta fala sobre a carreira e os planos para o futuro

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

03 de agosto de 2009 | 00h00

Passava das duas da manhã em Tel Aviv - e o humor do maestro Zubin Mehta já não era dos melhores. Talvez por isso ele inicie a entrevista com um desabafo. Na turnê brasileira que faz com a Filarmônica de Israel a partir de sábado, com concerto em Paulínia, ele gostaria de ter trazido na bagagem a monumental Nona Sinfonia de Mahler, um autor "de fascínio constante", cuja música "presta-se tão bem à sonoridade dessa orquestra". Os produtores brasileiros, no entanto, preferiram programas mais comportados - em um deles, obras de Richard Strauss; no outro, a sexta e a sétima sinfonias de Beethoven.Eles dizem que é um privilégio ter um intérprete como Mehta mostrando sua visão de obras tão importantes quanto as sinfonias de Beethoven. Vão além e explicam que, da última vez que estiveram aqui, filarmônica e maestro interpretaram Mahler, mais precisamente a Sexta Sinfonia. Mas a Nona está longe de ser apenas mais uma sinfonia de Mahler - é, em certo sentido, a essência de seus credos pessoais e artísticos, além de uma porta para o início da música moderna. "Seria repetitivo." Será? Nos últimos cinco anos, a peça foi feita apenas uma vez em São Paulo, com a Osesp. A Sexta de Beethoven, por exemplo, foi interpretada em cinco concertos diferentes.O humor, de qualquer forma, logo melhora. Falar em Mahler ganha significado maior quando se tem em mente que Mehta tem se dedicado bastante à música de Strauss e Wagner - e que os entende como parte de uma enorme linhagem que remonta, entre outros autores, a Beethoven. "Wagner tem muitos netos, sem ele a música que viria em seguida seria certamente diferente", diz Mehta. "Mahler e Strauss com certeza são dois dos mais importantes e nos oferecem um olhar interessante sobre a maneira como a música se desenvolve, como a criação dialoga com o passado ao mesmo tempo em que olha para frente. E então, no mesmo espírito, é natural que voltemos a Beethoven."A conversa não segue esse caminho por acaso. Mehta diz refletir bastante sobre a ideia de redenção da música de Mahler, "a premonição da morte e a crença em um ideal de salvação". É também a morte de um mundo, de um corpo de conceitos. "No período que antecede a 1ª Guerra Mundial, assim como naquele que se segue a ela, o mundo todo está implodindo, surge uma nova maneira de ver esse mundo, que, claro, acaba incorporada também na música de alguns dos principais compositores de então, caso de Mahler e Strauss." Mehta lembra de montagens israelenses de Salomé e Ariadne auf Naxos, ambas de Strauss. Na próxima temporada, rege sua primeira Mulher Sem Sombra, em Florença, na Itália. E, ainda este ano, em Valência, na Espanha, comanda duas interpretações da tetralogia O Anel do Nibelungo, ciclo de quatro óperas de Wagner inspirada na mitologia germânica - a concepção cênica é do conjunto catalão La Fura dels Baus. À frente de sinfônicas como a Filarmônica de Nova York, da qual foi diretor nos anos 80, ou de Israel, que dirige desde os anos 70, Mehta deu um jeito de nunca se afastar da ópera, mesmo que suas intervenções no gênero sejam hoje menos frequentes. "Ópera demanda tempo", ele diz. Mas, sempre que possível, ele o separa em sua agenda. Basta ouvir algumas de suas gravações de trinta anos atrás para se ter uma ideia de sua afinidade com a música de autores como Verdi - seu Trovatore, com Leontyne Price, Placido Domingo, Sherrill Milnes e Fioreza Cossoto pode facilmente brigar pelo posto de gravação de referência. "Eu nunca percebi, naquela época, a sorte que tinha com os cantores, os elencos que me eram oferecidos", ele contou à revista Opera, edição de junho deste ano. "Nós simplesmente não temos mais cantores como esses nos nossos dias", completa. Ao Estado, porém, ele afirma que o quadro não é totalmente desolador. "Há gente boa sim, em especial uma geração que tem saído da Rússia."

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