Bastidores da guerra de egos

O livro Celebutantes retrata a fogueira de vaidades nas festas da Academia

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

23 Fevereiro 2008 | 00h00

Rastejar é o mínimo que se pode fazer para convencer um ator em ascensão ou a ?nova futura Julia Roberts? a escolher o traje que vai vestir na entrega do Oscar. É o que Lola Santisi logo descobre quando inicia sua batalha em defesa dos vestidos e dos ternos desenhados por Julian Tennant, aliás, seu "melhor amigo gay", como define esse e outros amigos e inimigos. Como é narrado por Lola, Celebutantes oferece ao leitor uma infindável série de comentários venenosos capaz de envergonhar o mais ácido dos cronistas mundanos. Ela nasceu justamente num dia de entrega do Oscar. "Minha mãe estava no meio de uma mordida da ainda nada famosa pizza de salmão defumado, do chef Wolfgang Puck, no meio do Oscar de melhor ator de Dustin Hoffman, quando sua bolsa estourou", conta. Logo, Lola descobriu a dificuldade de se relacionar com o pai-diretor,de quem só conseguia notícias frescas se assistisse diriamente ao Entertainment Tonight. Na batalha de egos, aliás, ela rapidamente descobriu pessoas pós-graduadas em falta de caráter, com mestrado em manipulação e doutorado em punhalada pelas costas. Lola conta sua dura trajetória usando como referências o que sabe de cada um do mundo cinematográfico. São os momentos mais maldosos do romance e, claro, mais saborosos. Afinal, é fácil imaginar a dificuldade enfrentada pelo irmão, Christopher, quando ele dá a impressão de que foi arrancado de um filme de zumbi do George Romero. Isso quer dizer que ele já está bem encaminhado para o fundo do poço, mais conhecido por Britney Spears. As autoras Amanda e Ruthanna não se preocupam em camuflar nomes. Quando descobre que Scarlett Johansson desiste de usar um vestido de Julian, Lola desabafa: "Detestar esse vestido seria como detestar Cidadão Kane." A dupla de escritoras não nega fogo também em mostrar a sujeira debaixo do tapete, revelando alguns macetes da sétima arte. É o caso de uma atriz, que desiste de participar do filme dirigido pelo pai de Lola, pois teve de se internar em uma clínica por "exaustão". "Todos sabem o que quer dizer ?exaustão? em Hollywood: a inevitável revelação para a revista Star, feita por um ?amigo querido?, de que você foi vista cheirando como uma porca nos bastidores de festa beneficente." O consumo de maconha e o ator que dorme com o diretor em busca de um papel de destaque na próxima produção não passam, no livro, de café pequeno. Os artistas são hoje muito mais paparicados que no passado, recebendo absurda quantidade de presentes caros. E são tão capazes de abrir mão dos mimos quanto Mel Gibson de se converter ao judaísmo. "Essas celebridades não sabem como se dão bem agora." Ela relembra um caso: quando foi indicada para o prêmio de melhor atriz por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, em 1977, Diane Keaton só ganhou a estatueta e mais nada. Pior: dirigiu pessoalmente seu Volkswagen, usando o terno emprestado do irmão. O importante é saber enfrentar a cerimônia do Oscar e as festas que se seguem. E descobrir, no dia seguinte, que a carreira ainda está sob controle; a vida amorosa, sob controle; a cura do câncer, sob controle; e, como ninguém é de ferro, também as novas botas Chanel de couro crocodilo, sob controle.

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