Reuters
Reuters

Banksy: como ele será lembrado no futuro?

Ele é mestre em manipular a mídia e o mercado de arte, mas há dúvidas quanto a seu legado

Scott Reyburn, The New York Times

12 de fevereiro de 2020 | 09h00

O contraste entre o velho mestre do século 17 e o disruptor do século 21 não poderia ser maior. À esquerda, o altamente introspectivo Rembrandt de Autorretrato com Boina Vermelha. À direita, atrás de um vidro de proteção, o que sobrou de Garota com Balão, de Banksy. O quadro foi manchete ao se autodestruir sensacionalmente em um leilão. Uma parte da tela destroçada balança tristemente abaixo da luxuosa moldura dourada.

Rebatizado como Love Is In the Bin (O amor está no lixo), o resultado final daquilo que, para muitos, é a mais espetacular loucura de Banksy, está há quase um ano emprestado à Staatsgalerie Stuttgart, da Alemanha.

A ação de destruição ficou congelada no momento em que, em um leilão de arte contemporânea de 2018, ante uma plateia atônita, uma pintura que acabara de ser vendida por US$ 1,4 milhão foi feita parcialmente em tiras por meio de um mecanismo destruidor controlado remotamente. 

O mecanismo travou quando metade do quadro já estava despedaçada. Paradoxalmente, especialistas consideram que a obra hoje vale para a intenção de Banksy de denunciar os excessos do mercado de arte do que quando estava intacta. 

A exibição do quadro, por empréstimo do comprador anônimo, terminou no dia 2, atraindo nos 11 meses que durou 180 mil visitantes à Staatsgalerie, o dobro do normal no mesmo período.

Quinze anos atrás, Banksy, um jovem artista de rua de Bristol, Inglaterra, ainda estava infiltrando suas obras em museus como “pegadinhas”. Hoje, os quadros são estrelas de mostras.

Como Banksy, o arquétipo do artista provocateur, chegou lá? Não foi por acaso, dizem os especialistas. Os sucessivos avanços de Banksy resultam de anos de um controle meticuloso de sua mensagem, de sua estratégia de marketing e, o mais importante, de sua mística. Agora, a enorme popularidade da arte urbana de Banksy fez o establishment cultural reavaliar sua percepção de elitismo. 

A Staatsgalerie Stuttgart lançou uma questão: Banksy é um artista significativo historicamente? E se for - para muitos é um grande “se” - qual será seu legado? Integrar o panteão artístico talvez fosse a última coisa que Banksy tivesse em mente no início dos anos 2000, quando pintava com spray nas ruas de Bristol e Londres imagens de ratos, chimpanzés, Monalisas de bazuca e policiais se beijando.

Steve Lazarides foi empresário, fotógrafo e colaborador de Banksy nesses anos de formação e montou uma galeria em Londres que representou o artista de 2006 a 2008. Numa entrevista recente, ele disse que Banksy é “um controlador obcecado até os últimos detalhes, e é isso que o fez famoso”.

Lazarides rompeu com Banksy em 2008 e a galeria chegou ao fim. “A internet a tornou redundante”, afirmou. “Por que dar ao marchand 50% se em seu site e no Instagram o artista pode vender diretamente ao colecionador e ficar com tudo?”

Banksy não tem hoje nenhuma galeria representando-o. Mas discretas vendas multimilionárias de obras originais a colecionadores selecionados ajudam-no a financiar suas loucuras grafiteiras e projetos ambiciosos, como o Dismaland, um parque de diversões no sul da Inglaterra, e o Walled Off Hotel, um espaço para exposições, loja de spray e alojamento com nove quartos em Belém, na Cisjordânia.

Banksy também está empenhado em regulamentar a revenda de sua produção artística. Em 2008, ele criou a Pest Control, uma agência dedicada a autenticar suas obras e impedir que peças falsificadas entrem no mercado. Casas de leilões e marchands conceituados hoje só vendem Banksys certificados pela Pest Control.

A “mão invisível” de Banksy também exerce influência em leilões. Embora ele próprio pouco se beneficie com essas vendas públicas, os resultados dos leilões podem valorizar as obras que ele vende a colecionadores privados. 

Há suspeitas de que Banksy tenha atuado no leilão, em outubro, de seu quadro Devolved Parliament. O quadro mostra um bando de chimpanzés debatendo animadamente no Parlamento britânico. Banksy negou envolvimento.

A obra foi vendida pela soma recorde de US$ 12,1 milhões. O marchand londrino Acoris Andipa, especializado em Banksy, observou que Devolved Parliament foi promovido na conta do artista no Instagram em março. “É impossível que uma obra suba tanto de preço em tão pouco tempo sem algum tipo de envolvimento ou influência do artista”, disse Andipa.

Banksy usa acordos de confidencialidade e leis de propriedade intelectual para manter anonimato. O fato de sua identidade ainda não ter sido definitivamente revelada mostra como sua equipe é disciplinada. “Ele também emprega muitos advogados”, informou Enrico Bonadio, conferencista sobre direito da City University, de Londres.

O artista, que uma vez afirmou em um de seus murais que “direito autoral é para perdedores”, hoje parece ter se cansado de outros lucrarem com seu trabalho. Mas, como apontou Bonadio, “se você quiser abrir um processo por usurpação de direito autoral, terá de revelar sua identidade”. É aí que entra a Pest Control, acrescentou Bonadio.

Em janeiro de 2019, um juiz italiano deu ganho de causa à Pest Control contra uma exposição denominada Protesto Visual - A Arte de Banksy, realizada sem as bênçãos do artista. Seis itens tiveram de ser removidos da loja de presentes da mostra.

Banksy foi aconselhado por seus advogados a criar seu próprio merchandising. Isso mostraria que ele está usando comercialmente suas marcas registradas em lugar de apenas afastar apropriadores.

Posts na conta de Banksy no Instagram (7,1 milhões de seguidores) são mais impactantes por serem ocasionais. Quando uma nova pintura é anunciada - como a rena de Natal feita com estêncil numa parede próxima à “casa” de um sem-teto em Birmingham, Inglaterra, em 9 de dezembro -, o lançamento tem cobertura imediata da BBC, Guardian, Reuters e outros veículos, sendo compartilhado e comentado nas redes sociais. 

Embora esse ciclo de anúncios-surpresa mantenha Banksy à vista do público, será que um dia levará suas obras às paredes dos museus mais importantes do mundo? Um quadro exposto na Staatsgalerie Stuttgart é uma coisa, mas ainda não há Banksys em coleções permanentes da Tate Modern, de Londres, ou do Museu de Arte Moderna de Nova York.

O crítico e curador Francesco Bonadio, que selecionou as obras para a Whitney Biennial de 2010, não se surpreende. “Grandes artistas criam uma linguagem e uma gramática, e Banksy não fez isso”, disse ele. “O que ele faz parece mais uma campanha publicitária do que arte.”

Mas, para admiradores de Banksy, seu papel como ativista social é tão importante quanto a própria arte.

Mike Snelle, também conhecido como Brendan Connor, da dupla de artistas Connor Brothers, disse que projetos “loucos” como Dismaland e Gross Domestic Product é que vão definir seu legado. “Esses projetos custam fortunas, mas Banksy fica feliz em investir em coisas nas quais acredita.”

John Zarobell, professor da Universidade de São Francisco e autor de Art and Global Economy, de 2017, disse que vê Banksy como um “agitador conceitualista à la Duchamp, cujas atitudes duram mais do que as obras”. 

A grande questão ainda é se Banksy finalmente conseguirá chegar aos grandes museus. Mas isso nem mesmo ele pode controlar. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Tudo o que sabemos sobre:
Banksyartes plásticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.