Banda latina mais popular, Maná questiona Chávez

Baterista do grupo mexicano aponta aumento de pobreza em Caracas e diz que chegou a hora da liberdade em Cuba

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2008 | 00h00

Shakira? Ricky Martin? Julio Iglesias, Ivete Sangalo? Paulina Rubio? Roberto Carlos? Nada disso. O artista pop latino mais popular em toda a América é mexicano e tem 22 anos de estrada. Trata-se do grupo Maná, de Guadalajara. No mais recente levantamento do site Pollstar, que acompanha o faturamento das turnês na América do Norte, o Maná emplacou um fenomenal 8º lugar, embolsando US$ 33,9 milhões (cerca de R$ 60 milhões) e ficando ali com gigantes como Roger Waters, Dave Matthews Band, Elton John e outros. Em locais como o Madison Square Garden, em Nova York, seus shows lotam tão rapidamente quanto um de Madonna.A turnê do Maná foi vista por 2,5 milhões de pessoas no mundo, e teve 130 apresentações até agora. Esta noite, é a vez do Credicard Hall. Desde 2002, eles tentam romper a aparente incomunicabilidade entre o pop latino e o brasileiro. Saíram de Los Angeles na sexta-feira e, no domingo, já estavam no Domingão do Faustão, cantando sua eterna Corazón Espinado e fazendo loas ao ''maior jogador de futebol do mundo'', Ronaldo Fenômeno.Apesar do aspecto pacato e do timing do entretenimento, o Maná tem opiniões explosivas sobre a política latino-americana. A turnê Amar es Combatir só não passou por dois lugares no continente: a Guiana e Cuba. O primeiro, porque não tiveram convite. Ao segundo, não querem ir.Filho de mãe cubana, o baterista Alex González explica: ''Seria um sonho tocar lá, minha mãe saiu de Cuba em 1959, quando entrou Fidel. Ela preferiu deixar tudo para trás e viver em liberdade do que viver em uma ditadura. É uma situação complicada, e nós nos recusamos a ir porque não queremos que se monte um circo político. A gente vai como músico, buscando compartilhar alegria - e essa é a razão pela qual o Maná vai para qualquer País - e as pessoas poderiam dizer que estamos lá tocando para o regime comunista. Nós não concordamos com esse governo de Fidel e seus ideais. Iremos a Cuba quando Cuba tiver mais liberdade, mais direitos humanos, liberdade de expressão. Os cubanos já merecem uma oportunidade'', afirmou.Bom, tem também um outro lugar na América do Sul no qual talvez o Maná tenha dificuldade em voltar a tocar: a Venezuela. Este ano, o vocalista Fher Olvera já tinha feito críticas ao regime chavista. O baterista González as aprofundou: ''A única coisa que podem fazer é não nos deixar entrar (na Venezuela). Mas não nos omitimos. Nenhum líder ou presidente tem o direito de boicotar um artista. Um líder é de carne e osso, tem defeitos e qualidades. não é um Superman, não é um Messias. Tem de aceitar qualquer crítica da sociedade civil. Se tem gente para aplaudir, tem gente para criticar. O que digo sobre a Venezuela é que um país que é o nº 4 em potencial de exportação de petróleo, e os cidadãos não têm leite, não têm pão, não têm açúcar... Quando fomos a Caracas, em 2007, vimos um outdoor onde estava escrito: ''Socialismo, pátria ou morte.'' E aí você vê mais pobreza e mais gente miserável do que nunca. Como isso é possível, com tudo que está dizendo esse senhor? Veja: eu não me preocupo com os políticos e com a política, mas com a gente pobre da Venezuela.''Mas Alex, depois das críticas, pede para o tema voltar à música. Entonces... A nova vinda do Maná ao Brasil é para promover a compilação de sucessos da banda, intitulada Arde el Cielo. Só tem duas músicas novas, mas o baterista Alex González defende vigorosamente o lançamento. ''É mais do que uma compilação. Desde 1994 que o Maná não lançava um disco ao vivo. Lançamos um Unplugged, mas não é o mesmo. Agora é um show ao vivo, mais de duas horas, todos os hits, além de duas canções inéditas.''Uma das canções inéditas é a que dá nome ao disco, Arde el Cielo, na qual o compositor e cantor do grupo, Fher Olvera, lança mão de versos dantescos como ''Arde el Cielo, amor/Sale el alcohol, sale el demonio/Un infierno/Manicomio''. Será que o Maná entrou para o grupo dos roqueiros de Deus? ''Não tem de ser cristão ou religioso para ser uma pessoa positiva. Essa música, na verdade, fala das relações entre casais, que muitas vezes são muito violentas. A violência contra as mulheres em casa é alarmante, é um problema, e temos de atacá-lo. A música trata desse tema'', esclareceu.ServiçoManá. Credicard Hall (5 mil lug.). Avenida Nações Unidas, 17.955, Santo Amaro, 6846-6010. Hoje e amanhã, 21h30. R$ 80 a R$ 300

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