Balzac pinta a França profunda

Novas traduções de Eugénie Grandet e Tratados da Vida Moderna renovam interesse pelo romancista

Leda Tenório da Motta, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

Se o escritor clássico é aquele que sempre recomeçamos a ler, e se a tradução não se separa, burocraticamente, nem da criação nem da crítica, podemos pensar que é inseparável da tarefa de reinterpretar os clássicos a de retomar sua tradução. Assim, faz todo o sentido reencontrarmos na coleção chamada Clássicos da Literatura Mundial na Estação Liberdade um título como Eugénie Grandet, de Balzac. Mesmo porque, diferentemente do que vem acontecendo por aí, em papel-bíblia, os volumes da Estação Liberdade são servidos de ótimo aparato crítico. Mas - com todo o respeito pelos grandes clássicos -, Eugénie Grandet está para Balzac assim como Madame Bovary está para Flaubert. É uma das marcas registradas de seu autor, e nela vibra, inegavelmente, aquele mesmo fantástico senso da história da vida burguesa na sociedade francesa oitocentista que faz de Balzac, Balzac. Contudo, no cânone balzaciano, este romance datado de 1831, pertencente às Cenas da Vida Interiorana, está longe de ocupar o centro dos acontecimentos, pelo menos para nós, hoje. Tão certo quanto, em Flaubert, também não é o romance da pobre Bovary que se toma, hoje, nos melhores redutos críticos, como o testamento literário de seu autor, mas esta espécie de antirromance da última e melhor safra que é Bouvard e Pécuchet.De fato, no grande painel da Comédia Humana, uma coisa são os estudos de caso que retiram toda a sua força do realismo cruel do primeiro dos escritores fisiologistas, caso da história da moça feia mas cobiçada por ser a herdeira daquele avarento no grau heroico, de que jamais nos esqueceremos: o Pai Grandet. Uma outra coisa são os monumentos inclassificáveis como As Ilusões Perdidas, que, aliás, já está no catálogo de clássicos que a Estação Liberdade vem relançando, no qual figura ao lado de Bouvard e Pécuchet, de que também já tínhamos uma antiga versão, pedindo para ser repensada.Não que Eugénie Grandet seja alguma literatura para moças, como nota, afugentando qualquer possibilidade de descarte fácil, o especialista francês convidado a assinar o prefácio desta nova tradução de um velho Balzac. Ao contrário, muito da importância deste pequeno ladrilho do mosaico literário em questão está numa pintura da França profunda até então impossível, já que, naquelas alturas, como reconhece o próprio Balzac, na apresentação do romance, não havia poeta disposto a encarar o mundo baixo provinciano, o que ele, ao contrário, se propõe fazer. E é também verdade que esta peça do jogo de armar balzaciano, que agora nos chega na ótima tradução de Marina Appenzeller, que usa de termos castiços, como Mário Quintana vertendo Proust, já se avizinha do turning point que é a passagem àquele sistema de encaixe de uma obra na outra de que depende, justamente, a ideia e o conjunto de A Comédia Humana.Há coisas feitas por Balzac que, embora menos festejadas nos manuais de literatura e nas salas de aula, onde se releem os clássicos, constituem uma produção da maturidade. Desponta nesta outra leva uma escritura já perto de ser autorreferencial, que já se volta para os próprios limites, já encara as as próprias condições de fabricação, aqui inseparáveis da cooptação dos escritores pelos jornais, tão própria do século 19, que é, no limite, o objeto da Comédia Humana. Envolvendo uma fascinante relação de duplo vínculo com o poderio da imprensa, que passa a tema, este outro filão é, justamente, o de As Ilusões Perdidas, com seu Rubempré que vendeu a alma aos editores-chefes, nesses tempos em que Fausto é o artista em busca de visibilidade e fortuna, no espaço do rodapé. É disso também que trata um Balzac que faz falta - e fica desde logo proposto às editoras que reeditam os clássicos - o Balzac da Monografia da Imprensa Parisiense, tanto mais que a tradução brasileira existente dificilmente se encontra nas livrarias e é básica demais. Escritos ao longo do decênio de 1830, são espiritualmente desta segunda fase - mais na mão contrária à de Eugénie Grandet, mais no sentido do campo para a cidade, mais perto da morte de Balzac, em 1850 - os Tratados da Vida Moderna, que a Estação Liberdade também está lançando, com refinadíssima tradução comentada de Leila de Aguiar Costa. Nessas páginas inesperadas, primeiro publicadas nos jornais e revistas, depois acomodadas na bem menos frequentada seção da Comédia intitulada Estudos Analíticos, o observador de interiores, agora transformado em naturalista das ruas, simplesmente registra, feito o pintor da vida contemporânea, como as pessoas se movem, como se ocupam, o que comem, o que vestem. Preenchidas de notações não ficcionais, geralmente aforismáticas - como esta, entre grave e irônica: "O homem que saiu nu das mãos da natureza é inacabado para a ordem de coisas em que vivemos. É o alfaiate que é chamado a completá-lo" -, elas são claramente precursoras da prosa baudelairiana em torno do heroísmo da vida moderna. Por aqui já passam os dândis, os homens de terno preto sem distinção - salvo a diferença oferecida pela gravata, a que é dedicado todo um capítulo. Por aqui já passam esses sujeitos urbanos enredados nos movimentos da vida alienada que, no Salão de 1846, o poeta de As Flores do Mal vê como os seguidores de um cortejo fúnebre, e aos quais ele opõe o flâneur. Aqui, enfim, já se sente a cidade, que vai se tornando personagem; sente-se a força do tédio que se abate sobre a cidade, já se fareja o spleen de Paris. Deve ser isso um grande clássico! Alguém em cujos arquivos se possa descobrir, de repente, que a linha dos interiores - a linha das casas francesas, pequenas e grandes, dos Grandet, dos Goriot, dos Langeais - já era contestada, de dentro, pela corrente do cenário urbano, pela linha futurística do homem na multidão. Leda Tenório da Motta, professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, é autora de Proust - A Violência Sutil do Riso

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