''Balé é arte custosa'', diz Alicia

Coreógrafa e bailarina cubana, de 88 anos, chega a Belo Horizonte, onde sua cia. inicia turnê brasileira

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

08 de maio de 2009 | 00h00

A bailarina e coreógrafa cubana Alicia Alonso tem uma resposta simples para justificar a escolha do clássico Giselle para a comemoração dos 60 anos do Ballet Nacional de Cuba. "O bom todo mundo quer ver e tem o direito", afirma a fundadora e diretora de uma das mais prestigiadas companhias de dança clássica do planeta, que apresenta a montagem hoje e amanhã no Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537), em Belo Horizonte, dando início à temporada brasileira da turnê mundial. Alicia Alonso, de 88 anos, considerada uma das personalidades mais relevantes da história da dança no cenário internacional, promete apresentar ao público uma adaptação mais palatável aos dias atuais, fruto de influências e anos de pesquisas sobre a obra romântica do século 19, de Jean Coralli e Jules Perrot, com música de Adolphe Adam. A última turnê do Ballet Nacional de Cuba pelo Brasil foi há três anos, com o espetáculo A Magia da Dança. Desta vez, Giselle será apresentada em mais oito cidades brasileiras, não apenas capitais. Além de Belo Horizonte, estão programadas apresentações no Rio, Juiz de Fora (RJ), Recife, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Caxias do Sul (RS), Jaraguá do Sul (SC) e Curitiba. Na capital paulista, os espetáculos serão nos dias 20 e 21 deste mês.A montagem reúne um corpo de 60 dos cerca de 130 bailarinos da companhia cubana. Alicia Alonso, apesar da idade e dos problemas de visão, mantém-se como referência do grupo, acompanhando sua rotina diária e as turnês. "Eu trabalho todo dia. Como não posso dançar, tenho necessidade de ajudar. Me sinto viva quando estou no meio, quando me sinto necessária", conta. "Para mim, dança é a vida. É a forma com que eu pude me expressar melhor com o mundo." Depois de participar de musicais da Broadway e integrar o New York City Ballet nos anos 1930, onde se tornou intérprete das grandes obras do repertório romântico e clássico, Alicia, então com 28 anos, retornou à terra natal e em 1948 fundou Escuela Cubana de Ballet. Onze anos depois, quando os revolucionários tomaram a cidade de Havana, derrotando o governo do ditador Fulgêncio Batista, a companhia passou então a adotar o atual nome."Com o triunfo da revolução em Cuba, pudemos escolher os meninos a partir de 9 anos", recorda a veterana bailarina, destacando os investimentos necessários para se manter a companhia. "O balé é uma arte muito custosa. Seu estudo vale muito. Por isso, necessita de ajuda do Estado ou de patrocinadores fortes. Nós só temos o Estado."Quando o assunto é o regime da ilha, Alicia não tergiversa e sai em sua defesa. Na entrevista coletiva que concedeu na capital mineira na última quarta-feira, reagiu inicialmente com uma gargalhada ao ser questionada sobre a expectativa em relação a uma maior abertura política no país e início de diálogo com os Estados Unidos. Não vê como essas questões poderiam influenciar a respeitadíssima companhia de balé. "Nós seguiremos adiante, temos um grande horizonte, demonstramos isso. Somos uma ilha pequena e seguimos em frente", diz, enfática. "Temos uma forma de viver muito adequada, muito necessária para os cubanos. Estamos muito contentes apesar das grandes pressões daqueles que não nos amam." Até a chegada do "senhor Bush" à Casa Branca, o Ballet Nacional de Cuba se apresentava com "regularidade" no território norte-americano, observa Pedro Simon, diretor do Museu da Dança de Cuba e marido de Alicia. Mas os EUA não estão incluídos na atual turnê mundial.A companhia cubana já abrigou dançarinos de várias nacionalidades da América Latina e Europa, principalmente na fase anterior à revolução de 1959, quando a arte era ainda incipiente na ilha. Nas últimas cinco décadas, com a nova programação cultural imposta pela regime socialista, gerações de bailarinos cubanos foram formadas e atualmente os dançarinos nascidos naquele país representam a grande maioria do corpo artístico. Dentre as principais escolas clássicas do mundo, Alicia ressalta que o Ballet Nacional de Cuba possui característica fundamental: "Somos latinos. Temos uma forma de dançar um pouco sensual, mesmo que não se note. Eu penso que é a melhor (companhia)", observa, com humor, mas sem modéstia.

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