Baianas evidenciam defeitos com Gil

Na primeira noite do evento, cantoras convidadas mostram o pior de si ao lado do anfitrião, que fez um show decepcionante

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

18 de janeiro de 2008 | 00h00

Diz a boa canção de Gilberto Gil que ''''toda menina baiana tem um jeito'''', mas também tem defeitos. Mas e quando não há jeito para disfarçar esses defeitos? Resulta na experiência deprimente da noite de abertura do décimo Festival de Verão, em Salvador, em que o ministro compositor recebeu quatro dessas conterrâneas: Ivete Sangalo, Margareth Menezes, Cláudia Leitte e Preta Gil. A melhor das quatro, Margareth, foi a mais prejudicada, tendo de entrar no tom da banda, altíssimo para sua voz, em Palco. Das outras três - que não cantam, só gritam - não se podia mesmo esperar grande coisa.Era para ser o show, digamos, mais digno do palco principal , mas a participação de Gil foi marcada por uma sucessão de equívocos. Primeiro porque ele já entrou em situação de anticlímax, depois da apresentação desatinada de Ivete. Sempre em transe tresloucado, a bispa do axé foi em parte o maior motivo para mais de 50 mil pessoas irem ao Parque de Exposições.Sem ânimo, o público minguado que restou a Gil, no início da madrugada de ontem, não se empolgou em aplaudir composições mais recentes, como Pela Internet e Banda Larga, nem hits mofados dos anos 80, como Realce e Punk da Periferia, que predominaram no roteiro de 14 canções. Entre reggae, rock, samba, forró (uma versão anêmica de Esperando na Janela, com teclado de churrascaria no lugar da sanfona), Gil puxou para o pop de mexer com multidões, mas obteria melhor resultado em palco de menor porte.É triste ter de dizer isso de um dos mais incríveis criadores da canção brasileira, mas para que persistir quando o melhor é dar um tempo? Pela medida da voz que sai com esforço exasperante, a melhor solução seria conduzi-la para algo mais intimista. No entanto, o próprio cantor não concordou com o filho em terminar o show só com voz e violão, depois que uma chuva rápida, mas intensa, molhou alguns instrumentos, interrompendo a apresentação logo no fim de seu momento de melhor efeito: um cover de Is This Love, de Bob Marley. Para muitos a chuva foi providencial, provocando outra debandada.Depois de alguns minutos, burocraticamente, Gil voltou para encerrar a apresentação apressando os dois duetos restantes: o primeiro com Claudia Leitte em Vamos Fugir. De quem já quem fez obras-primas, como Domingo no Parque e os álbuns Expresso 2222 e Refavela, ouvir elogios ao ''''trabalho maravilhoso'''' de Claudia com o Babado Novo é dureza. E cantar Chupa Toda com Ivete, então? Socorro! Ok, ele faz o que quiser, mas a gente não precisa passar por isso. E quando se achava que nada pior poderia acontecer, entra Preta para arruinar tudo de vez em Toda Menina Baiana.Nos intervalos das canções ainda se podia ouvir o som que vazava da boate no camarote ao lado. O festival incrementou a infra-estrutura, mas ainda precisa de reparos nesses aspectos. Os camarotes têm até áreas climatizadas, que dão um refresco, e a tenda eletrônica também agora é fechada com ar-condicionado. O preço dessas melhorias é a poluição visual provocada pela ostensiva publicidade dos patrocinadores, além do lixo de material plástico que se acumula no ambiente.O melhor espaço ficou sendo o do palco Tendências, que de novo mudou de posição, mas estava com o som mais definido do que o do principal. Duas bandas, uma de rock e outra de reggae, fizeram shows convincentes ali, arrastando público numeroso e entusiasmado. O Tihuana deu uma levantada na carreira depois que Tropa de Elite entrou para a trilha sonora do filme homônimo. Como previsto, foi o ponto alto de sua apresentação. Em melhor nível de produção, o Ponto de Equilíbrio demonstrou competência maior ao vivo do que em gravações. Deu de dez nos manjados shows do palco principal, por onde passaram também os dispensáveis Capital Inicial, Eva e Charlie Brown Jr.O repórter viajou a convite da produção do festivalA Festa Continua POUCO ALÉM: Todo ano é mais ou menos assim, o Festival de Verão tem lá sua overdose de Ivete Sangalo, mas também respira outros ares. Durante o show dela até a pista eletrônica com drum''''n''''bass tinha público razoável, o que reflete a diversidade que o evento discretamente propõe, como opção para quem não embarca no irritante bordão ''''sai do chão'''', que até Gilberto Gil (que vai lançar CD em junho) chegou a esboçar, provocado pela filha. A noite de estréia não teve os grandes acontecimentos que se esperava de uma comemoração de dez anos. E a de hoje também não promete. A única novidade entre os mais famosos é Beth Carvalho, que estréia no festival. Apesar de ter realizado um bom projeto só com sambas da Bahia, a cantora vai fazer o apanhado de carreira que todo mundo faz no palco principal. No mais, é o axé de sempre de Asa de Águia, Timbalada e de novo O Rappa. Ontem havia expectativa em torno de duas atrações no palco Tendências - Cachorro Grande e o 3BRio com participação de Manu Chao - e, no principal, Seu Jorge, que também canta pela primeira vez no evento, e Daniela Mercury. Amanhã o destaque é o cantor sueco Eagle-Eye Cherry, que faz o penúltimo show em meio ao pré-carnaval dos Psiricos da vida. Melhor é ficar com os criativos mineiros do Pato Fu no palco Tendências, que também vai ter a boa banda baiana de rock Cascadura. L.L.G.

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