Bahia rende homenagens a Lina Bo

São duas mostras: uma de obras que a artista garimpou pelo Nordeste e a outra é de fotos que estavam desaparecidas

Tiago Décimo, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Quatro décadas depois, o acervo de arte popular montado pela arquiteta italiana radicada no Brasil Lina Bo Bardi (1914-1992), ao longo de cinco anos de garimpagem pelo Nordeste, volta a ser exposto. Não todo, mas "o possível", como explica o responsável pela expografia da mostra Fragmentos - Artefatos Populares, o Olhar de Lina Bo Bardi, o arquiteto André Vainer. "Anos de descaso e descuido fizeram com que o acervo, de cerca de 2 mil peças, tenha hoje apenas 800 em condições de exposição", afirma o arquiteto. A mostra, de longa duração, foi exibida pela primeira vez no evento Bahia no Ibirapuera, aberto em 21 de setembro de 1959, durante a 5ª Bienal Internacional de São Paulo, e será aberta hoje no novo Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador. Antes, as peças haviam passado pelo Solar do Unhão, em Salvador, na exposição Nordeste (1963-64) - que marcou a inauguração do Museu de Arte Popular (MAP) e o Museu de Arte Moderna (MAM) no histórico espaço da capital baiana -, e na A Mão do Povo Brasileiro (1969), no Museu de Arte de São Paulo (Masp), a grande obra da arquiteta. A passagem mais conhecida do acervo, porém, foi uma não-exposição: em 1965, o governo brasileiro vetou a exibição das peças na mostra Nordeste do Brasil, montada por Lina na Galeria de Arte Moderna, em Roma. "À época, houve uma grande resistência àquele acervo, tanto por parte dos militares, que não gostavam que se exibisse o ?lado pobre? do Brasil, quanto da própria elite artística brasileira, que rejeitava as ideias de vanguarda de Lina", conta Vainer. O arquiteto, que trabalhou com Lina entre 1977 e 1986, não esconde a tristeza pelo estado em que encontrou, em outubro, o material que vai ser exposto tampouco a alegria em conseguir montar uma exposição com o que restou. "As peças mais frágeis, como bonecas de pano e utensílios feitos de folhas de flandres, foram perdidas", lamenta. "Conseguimos reunir os artefatos feitos com material mais resistente, como utensílios de cerâmica, couro e madeira, ex-votos, santos, objetos de candomblé e bichos. São peças com um sentido utilitário muito forte." Há 30 anos, quem tenta cuidar das peças é a museóloga Mary do Rio. É dela o trabalho de relacionar, catalogar e tentar encontrar a origem de cada uma delas, coletadas entre os anos 50 e 60, sobretudo no interior de Bahia, Pernambuco e Ceará. "O descaso com o acervo foi tão grande que tiraram até o ventilador da sala na qual eu trabalhava, alguns anos atrás", lembra. "A pior época foi entre o início dos anos 90 e 2003: as peças ficaram em caixas, empilhadas, no porão de um casarão antigo. Cheguei a ouvir coisas como ?se algo estragar, a gente vai à feira e compra de novo?.""O que as pessoas não percebiam é que está nessa simplicidade a genialidade de Lina", afirma o diretor de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), Daniel Rangel. "Era o primeiro passo para a criação do Museu de Arte Popular, o grande sonho dela. De acordo com ele, a exposição é um exemplo do caráter visionário da arquiteta. "Ela tentava mostrar, naquele acervo, o princípio de formação de um design tipicamente brasileiro, contrapondo o europeu, que era tudo o que se tinha na época", lembra. "Além disso, já apontava o que seria a arte contemporânea. Hoje, é difícil dissociar a arte popular da contemporânea." Para a exposição, Vainer optou por fazer uma mostra completa, sem recortes. "É uma edição histórica, que representa um momento de quase 50 anos do Brasil, em que não havia ainda o mercado do artesanato, nem a produção em série desses objetos", conta. "Optamos por uma exposição simples, com os objetos agrupados por temas e pequenas explicações sobre os grupos." O arquiteto também dá a dica para aproveitar a mostra ao máximo: passar os olhos pelas peças do início ao fim. "No fundo da exposição, há uma sala com documentos e textos que ajudam a entender o significado das peças", informa Vainer. "Na volta, percebe-se uma nova exposição."FOTOSLina começou a frequentar a Bahia no fim dos anos 1950, inicialmente convidada para dar aulas e palestras. Foi convencida a se mudar para Salvador em 1958, para participar da fundação do Museu de Arte Moderna de Salvador, do qual foi a primeira diretora, há meio século. O museu, inicialmente, funcionava no foyer do Teatro Castro Alves, até que a arquiteta conheceu o Solar do Unhão, antigo entreposto comercial entre a capital baiana e as demais cidades da Baía de Todos os Santos, construído no século 17, e decidiu reformar o espaço para abrigar o MAM e o MAP. À época, convocou o fotógrafo Voltaire Fraga (1912-2006) para registrar o espaço e as obras que ali promoveria. As fotos ficaram perdidas, depois que Lina deixou a direção do MAM baiano, em 1964. Foram encontradas apenas em 2001, pelo fotógrafo Mario Cravo Neto - filho do escultor Mario Cravo Filho, colaborador de Lina -, quando ele trabalhava na confecção do livro Museu de Arte Moderna da Bahia. "Era um pequeno álbum, encadernado com arame, com uma dúzia de fotos da época anterior às obras", informa o fotógrafo. Dali, surgiu a ideia de montar uma exposição com as imagens no próprio MAM. O evento, que vai até dia 12, dá início, com a exposição do Solar Ferrão, às comemorações pelos 50 anos de formação do MAM. Simples e impactante, a mostra BO no MAM 1959_1964 é um site specific que promove a poderosa integração entre o que Lina encontrou no espaço, em suas primeiras visitas, e o que foi entregue por ela após as obras. A série de imagens feitas por Fraga foi ampliada, em proporção real, e reveste as paredes do espaço. Do centro, se tem a exata noção do que era o solar antes das intervenções de Lina. Do lado direito, no meio do salão, a grande escada helicoidal projetada por Lina garante a integração entre o antigo e o moderno. O fundo musical, de canções de época das ruas e das rodas de capoeira "veste" a exposição com rara felicidade. "A instalação provoca os sentidos, é muito forte", testemunha a diretora do MAM, Solange Farkas. Muito da potência da instalação vem das próprias memórias de Cravo Neto, que testemunhou, ainda adolescente, acompanhando o pai, as mudanças promovidas no espaço. "A ideia não é embalsamar aquela imagem do passado, mas integrar aquele momento à vida moderna", conclui ele.

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