Bacantes de volta à pista e na tela

Zé Celso e sua trupe reencenam tragédia que será lançada também em série de DVDs em março

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2009 | 00h00

Entrar no Teatro Oficina numa tarde de sol causa sempre impacto. Mesmo quem já conhece sua arquitetura singular se surpreende com a forte luz entrando pelo janelão de vidro e iluminando a pista/palco que lembra mesmo uma comprida rua, entre arquibancadas verticais que, sem público, parecem ainda mais altas. Vazio, o teatro parece maior e sua arquitetura original sobressai, mas não há silêncio. Ao piano está o maestro Marcelo Pellegrini puxando o som de uma animada banda - Cassio Martins no baixo, Ito Alves na percurssão, Flávio Caldas na bateria e Lyra na guitarra. Em torno da banda, atrizes, texto na mão, vozes afinadas e ainda mais animadas, dançam sob forte batuque: Dityrambooo! Carnaval no Oficina? Quase isso. É a volta do espetáculo Bacantes que inicia nova temporada pela cidade natal do diretor José Celso Martinez Corrêa - Araraquara. Serão duas apresentações, sábado e domingo, às 20 h, no Sesc. Depois, a montagem segue por cidades do interior do Estado e chega até Manaus no segundo semestre. Nessa tragédia tudo começa pelo nascimento de Dionisius, um deus com corpo humano, chifres e pés de bode, filho de Zeus com a mortal Semele. Grávida, é fulminada e Zeus gesta seu filho na sua própria coxa para protegê-lo da ira de sua mulher, a deusa Hera. Batizado Baco em Roma, esse deus perambula pela Ásia antes de voltar à Grécia, com seu séquito de Mênades/Bacantes, para exigir o reconhecimento de sua divindade, negada por Penteu, seu primo, que está no poder em lugar do velho rei Cadmo, pai de Semele. Mas as tias de Dionisius, entre elas Agave, mãe de Penteu, acabam subindo o monte Citeron e participando dos rituais dionisíacos. Penteu é convencido a ir até lá, disfarçado de mulher, e é estraçalhado pelas bacantes."Eram rituais de três dias em que a cidade se abria como fêmea, Dionisius virava tudo de cabeça para o ar e depois partia", diz Zé Celso. "Nessa tragédia, Eurípides documentou cânticos e ritos de iniciação do culto a Dionisius, origem do carnaval. " Ao longo do tempo, o ritual transformou-se mesmo nessa festa transgressora marcada pela inversão de valores: mulheres ocultas sob máscaras caem na folia, pobres se transmutam em reis, homens se travestem de mulheres e o poder é satirizado. Era assim o carnaval. Ultimamente, desfiles submetidos aos ditames dos patrocinadores e das redes de televisão, pode-se dizer que Penteu, o representante da ordem contra a subversão de Dionisius, venceu. Bem, não no Teatro Oficina. Bacantes, que Zé Celso define como Ópera Elektrokandomblaika de carnaval, é ritual sensual, alegre e livre - um simples ensaio da banda já revela isso. "Fazer essa peça é acima de tudo um prazer, um jogo dionisíaco musical e delicioso." Marcelo Drummond é Dionísio e Silvio Guindane um Penteu que lembra Obama. "Não há uma relação direta. A gente brinca um pouco, mas de um jeito apaixonado. Tem esse lado dele que diz que vai matar Osama, quando deveria conversar com ele. Talvez até faça isso, porque seu governo tem sido maravilhoso, mas por outro lado ele tem de representar o poder."Pascoal da Conceição é Cadmos e na pista do Oficina chega a ser engraçado ver a mistura de cores e vivências. Loira, Juliane Elting é alemã e se juntou à trupe na última viagem internacional do grupo. Negro retinto, Ageboh Cyrille fala francês e veio da República de Camarões para jogar futebol - agora é um satyro. Já anoitece e todos cantam e dançam na pista, alguns rostos bem conhecidos para quem acompanha a trupe: Ana Guilhermina, Camila Motta, Adriana Viegas, Ariclenes Barroso e o par de vozes poderosas de Leticia Coura e Céllia Nascimento. O samba contagia. Coroada de hera, Patrícia Winceski tem uma cobra à guisa de colar. "Eu dei de mamar ao Caetano Veloso, lembra dessa história?" Quem poderia esquecer? Na linha de frente, Vera Barreto Leite é Hera e Hector Othon é um Zeus cuja coroa de hera e manto sob a nudez contrastam estranhamente com a conferência de mensagens no celular. É só um ensaio.Bacantes abre um ano de muitas viagens, algumas internacionais, desde uma temporada, já em março, nos Estados Unidos - a convite da Tulane University, de Nova Orleans - e Cuba, até a ida em maio para a Croácia, onde Zé Celso vai dirigir, com atores croatas, a convite deles, O Banquete, de Platão. Na bagagem, um cartão de visitas que é motivo de celebração: os DVDs com as filmagens dos espetáculos Cacilda!, Ham-let, Bacantes, Boca de Ouro, já legendados em inglês e espanhol. "Eles têm linguagem inovadora, nem teatro, nem cinema, outra forma de arte, artesanal e cibernética." A festa de lançamento será no dia 11, no Oficina, com início às 20 horas. "Mas eu quero exibir os DVDs no cinema, como vem sendo feito com as óperas, algo que eu previ", diz Zé Celso. Ele garante que a exibição vai causar impacto pela inovação de linguagem, o que já comprovou na França, onde exibiu Boca de Ouro: "A platéia ficou eletrizada." Para ele, nasce uma nova arte do olhar da câmera sobre o palco.

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