Babilônia, de volta à civilização

Museu do Louvre exibe raro material de época sobre a mitologia na cidade da Torre de Babel

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2008 | 00h00

O Museu do Louvre abriu no sábado retrasado uma mostra que literalmente já faz história: Babylone. É uma exposição riquíssima não só em material da época (cerca de 2000 a 539 a.C.), mas também sobre a mitologia existente desde então a respeito da cidade da Mesopotâmia, na qual teria sido erguida a Torre de Babel. A montagem caprichada inclui controle do número de visitantes (até 500 por vez), iluminação especial, recriação de mosaicos e uma coleção de artefatos (estatuetas, objetos cotidianos, papiros, etc.) oriunda de diversos museus franceses e internacionais. Materiais como ouro, pedras preciosas, ônix e alabastro se moldam em imagens poderosas, mesmo quando miniaturas.Cidade de Hamurabi e Nabucodonosor, Babilônia invoca referências muitas vezes contraditórias: berço da civilização ou leito de depravação; instituições justas ou luxúria suicida; jardins suspensos ou costumes perversos? A lenda se multiplicou ao longo dos séculos. Registrada na Bíblia, ela foi tema de romances, poemas, pinturas e filmes, inspirou delírios de poder de Saddam Hussein e foi invocada por artistas românticos como Delacroix e Byron. (Sim, virou até pornochanchada brasileira, Rio Babilônia, mas este item não consta da mostra, que preferiu dedicar um nicho para Intolerância, de D.W. Griffith.) A segunda parte se dedica a coletar estes exemplos, incluindo um surpreendente e inexecutado projeto de monumento do arquiteto Frank Lloyd Wright.A primeira parte divide o período babilônico em três, e é notável como o público se detém peça a peça, lendo cada legenda, com uma atenção que raras vezes se vê. O tema em si já é razão suficiente para tanto sucesso, mas talvez conte com a colaboração de sua atualidade. Afinal, a fama de Babilônia como degradante foi estabelecida por sua inimiga Jerusalém, até certa altura uma cidade pequena diante da grandeza imperial da Suméria e por ela derrotada em 607 a.C. Como se sabe, as rivalidades ali estão longe de aplacadas.Babilônia era uma cidade à beira do Rio Eufrates, cerca de 90 km ao sul da atual Bagdá, e desempenhava o papel de uma ''capital da Antiguidade'' antes que Atenas tomasse a vanguarda da civilização. Sua origem vai até o terceiro milênio antes de Cristo, mas o material arqueológico mais seguro aparece mais tarde. Já no século 18 a.C., na época chamada de ''paleo-babilônica'', o rei Hamurabi editou o código que leva seu nome e foi um dos pilares universais do Direito. A mostra traz uma estela de basalto com sua inscrição. Outro destaque do período é um relevo de terracota que traz uma imagem da Rainha da Noite, com garras e asas de gavião e acompanhada de leões e corujas.Do período de Nabucodonosor, no século 6º a.C., vem a imagem mais estereotipada a respeito de Babilônia, pelas construções por ele ordenadas, como seu palácio e os jardins suspensos, e pela expulsão dos judeus de Jerusalém. É também o período em que a Torre de Babel teria sido erguida, como um templo marcado pela presença de imigrantes diversos (como toda capital imperial antiga ou moderna), e a mostra traz quadros como os de Pieter Brueghel e Gustave Doré que se basearam no relato do Gênesis para retratá-la.Entre um rei e outro, Babilônia dominou o Oriente Médio de tal modo que, do Egito à antiga Pérsia, seu idioma era ''língua franca''. Algumas de suas principais heranças literárias, como o poema épico Gilgamesh, marcaram criações futuras como as de Homero. A mostra traz uma tabuleta de argila com o relato do Dilúvio de Gilgamesh datado do século 7 a.C.. Um belíssimo cetro de ônix, também desse período, é outro objeto que se destaca. No registro oposto, um demônio de bronze, Pazuzu, mostra que no século 10º a.C. a arte babilônica já mostrava movimento e expressividade.No varejo, o maior valor dessa exposição está na beleza de tantas peças, inclusive colares e brincos, que pediriam mais tempo e menos gente para examinar com calma. No atacado, ele está em recolocar a civilização babilônica na origem da cultura posterior, e não mais como um período devasso e desarticulado anterior à fundação greco-romana ou judaico-cristã, conforme as classificações habituais. Sagrada e profana, Babilônia embalou a todos.

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