Babel traz o time da Magnum para o País

Elliott Erwitt é o segundo fotógrafo da agência que galeria expõe em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

04 de agosto de 2009 | 00h00

Fundada em 1947 por Cartier-Bresson e Robert Capa, a Magnum é a agência dos sonhos de qualquer fotógrafo no mundo. E, graças à insistência de uma ex-comissária de bordo, ex-dublê de cinema e ex-funcionária do Palácio de Buckingham, a jovem paulistana Jully Fernandes, as exposições, projetos culturais, publicação de livros e vendas no Brasil da histórica cooperativa de fotógrafos vão passar agora pelas mãos dessa ágil empresária de 35 anos, que em pouco tempo conquistou veteranos da Magnum como o ex-presidente Stuart Franklin, o atual presidente Alex Webb e dois dos maiores fotógrafos contemporâneos, o alemão Thomas Hoepker e o francês Elliott Erwitt, que vive nos EUA.Hoepker ganhou sua primeira exposição no Brasil no ano passado, quando a irrequieta Jully, após dezenas de e-mails trocados com o fotógrafo, conseguiu convencê-lo a trazer suas imagens para a Feira Internacional de Fotos de São Paulo (SP Arte/Foto). Sua mostra foi um sucesso. Hoepker, que registrou a mais insólita imagem do 11 de setembro - jovens conversando enquanto as torres gêmeas pegam fogo -, ficou surpreso com o interesse dos colecionadores brasileiros por suas fotos (que chegam a custar 65 mil, caso da anteriormente mencionada). E, natural, recomendou Jully aos colegas.O resultado dessa inesperada associação entre um premiado fotógrafo alemão e uma jovem desconhecida brasileira, proprietária de uma galeria virtual, a Galeria de Babel (www.galeriadebabel.com.br), é que no próximo mês ela vai trazer para a SP Arte/Foto um dos nomes históricos da fotografia publicitária e jornalística, o francês Elliott Erwitt, que acabou de completar 81 anos. Filho de imigrantes russos, ele se mudou com os pais para os EUA quando tinha 10 anos e registrou imagens poderosas que circulam há mais de meio século, da bizarra foto dos pés de uma mulher ao lado de um chihuahua (1946) ao registro-síntese da Guerra Fria, o encontro de Nixon com Kruchev em 1959.Não contente em trazer Erwitt a São Paulo, Jully convidou o diretor da Maison Europénne de la Photographie, Jean-Luc Monterosso, para dividir com o assistente de Erwitt, Zak Powers, o estande da Galeria de Babel na SP Arte/Foto, que será aberta no dia 9 de setembro. Stuart Franklin, ex-presidente da Magnum, não poderá vir, mas em seu lugar vai estar Mark Lubell, diretor do escritório da Magnum em Nova York, após organizar uma exposição em 33 lugares do mundo com as fotos da tragédia do 11 de setembro, que rendeu mais de US$ 1 milhão, doados a instituições de caridade. Lubell está envolvido em outro projeto gigantesco, o de coordenar o trabalho de um grupo de fotógrafos que vasculha a América da crise econômica em busca de imagens reveladoras, nos mesmos moldes dos profissionais enviados para registrar a Grande Depressão dos EUA na época de Roosevelt.Como os caminhos de Hoepker, Erwitt, Lubell e Jully se cruzam é uma história que vale a pena contar. Ela começa há cinco anos, quando a empresária, aos 30 anos, decidiu abrir uma galeria de fotografia virtual para vender fotos de profissionais amigos, como Dimitri Lee, Andreas Heiniger e Ricardo van Steen. Já, então, Jully era uma colecionadora com alguma experiência na área de produção - ela trabalhou no Departamento de Fotografia de revistas. Ousada, ela decidiu que iria divulgar a qualquer custo a fotografia brasileira em museus estrangeiros e aproveitou sua fluência no inglês - ela foi casada com um percussionista britânico - para impressionar os diretores de importantes instituições da Inglaterra."Para quem estava acostumada a fazer produção de projetos impossíveis do Channel 4, colocar um portfólio debaixo do braço era até uma tarefa relativamente fácil", conta Jully, que, além das profissões já citadas, foi atriz e produtora teatral das peças de Miguel Falabella e Wolf Maya. "A recepção nos museus não era nem um pouco animadora, mas eu sou positiva e insistente", comenta, rindo, a zeliguiana empresária. "Na Europa, especialmente na Inglaterra, eles dão muito valor ao currículo e a gente no Brasil não é assim", observa, justificando a abertura de uma galeria virtual para exibir seus fotógrafos e conquistar a confiança dos diretores de museus e colecionadores. O próximo passo foi abrir um escritório de representação em Notting Hill, Londres. Agora, Jully, filha de uma pedagoga e de um sociólogo, vai dar um salto ainda mais alto. Acaba de alugar uma casa ao lado do escritório de Hector Babenco, no elegante Jardim Europa, onde a Galeria de Babel vai deixar de ser virtual e ganhar um espaço físico. "Conto muito com a sorte, mas sou ambiciosa e perfeccionista", admite a empresária, que já tem representantes na Argentina, México, Chile, Equador e até em Cuba.Trabalho, pelo jeito, não vai faltar. Pelo contrato com a Magnum, Jully vai supervisionar projetos culturais e exposições da agência no Brasil. No próximo ano, por exemplo, ela vai acompanhar a montagem da retrospectiva que a Pinacoteca do Estado deve dedicar ao fotógrafo Elliott Erwitt, segundo revela a empresária, que anuncia para a mesma época a publicação de um livro com fotos feitas na América Latina - o fotógrafo esteve no Brasil nos anos 1960. "Estamos pensando em organizar também uma mostra de seus filmes no Museu da Imagem e do Som, documentários mais pessoais como The Many Faces of Dustin Hoffman (um curta de 15 minutos que mostra as transformações do ator na época em que rodava o filme ?Pequeno Grande Homem?, de Arthur Penn)."Jully diz que o contrato com a Magnum é experimental. "Eles vão avaliar os primeiros resultados antes de fecharmos próximas exposições." Paralelamente, ela começa a trabalhar em parceria com galerias paulistas que têm em seus acervos grandes nomes, como a Millan, representante do fotógrafo Miguel Rio Branco, estrela do elenco da Magnum, que já teve entre seus associados Sebastião Salgado.Numa época em que a fotografia ganha novos colecionadores e as cotações internacionais atingem a estratosfera, a empresária, que tem uma coleção de 400 imagens - "grande parte delas sombrias" -, revela que só agora começa a colher os frutos de seu trabalho. "É preciso acreditar e eu acredito muito nos fotógrafos que represento", diz, citando a série dos vaqueiros de Andreas Heiniger como uma conquista vitoriosa do colecionador estrangeiro. "Hoje ele faz um sucesso incrível lá fora, mas foi muito difícil introduzir esse trabalho entre os colecionadores e curadores europeus."Ela passou um ano inteiro tentando um contato com Jean-Luc Monterosso, que organiza o Mês da Fotografia na França, e ainda não desistiu de participar da feira internacional Art Basel, que a rejeitou por ser virtual. "Mas já consegui a aprovação da feira de Arles, na França." E qual será o próximo passo? "Ter uma galeria importante como a Saatchi Gallery."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.