Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Estou com o presidente Lula e não abro: ler jornais dá azia. Pense nos exemplos recentes, surgidos na ressaca do réveillon. Em dezembro tivemos a maior queda da produção industrial em 13 anos, a maior fuga de capitais desde 1982 e o menor superávit da balança comercial desde 2003. O desemprego aumentou, e qualquer cidadão conhece um parente, vizinho e/ou amigo que foi demitido recentemente. A carga tributária em 2008 sofreu seu maior aumento no século, saltando para 34,8% segundo a otimista estimativa oficial. Por falar em otimismo oficial, a inflação beirou os 6%, mas índices alternativos bateram em dois dígitos e o aumento das escolas também. Já o dólar sofreu aqui a maior valorização do mundo, comprovando a tibieza do real. O atraso dos voos superou 20%, quase o mesmo do ano anterior, no auge do caos aéreo, embora a Anac tenha dito que nada disso aconteceria de novo. Vai sal de frutas aí?É claro que o governo diz que a culpa é da crise internacional. Mas quando tudo estava melhor ele ficava indignado quando se dizia que o bem-estar se devia aos eflúvios de fora. E a má gestão só piora os sintomas, pois não é com um aumento anual de 8% nos gastos públicos que o Brasil vai conseguir reagir à crise. Enquanto isso, Barack Obama assume nos EUA prometendo um investimento pesado em infraestrutura - muito maior que o PAC, que nenhum BNDES consegue desempacar - e o corte de impostos da classe média, na ordem de mil dólares anuais por pessoa. O mundo inteiro baixa juros, gastos e taxas; o Brasil faz o contrário. Deve ser a tal "singularidade" de Pindorama.Não é só a economia que queima no esôfago. Os jornais estão repletos de fatos ácidos como a ordem de libertação de Marcos Valério, a recusa de Tarso Genro em extraditar um terrorista italiano, a barganha do PT com PMDB de olho no fim da reeleição e na sucessão de 2010, a sinecura dada a Paulo Lacerda em Portugal apesar de acusado por uso indevido de grampos da Abin nas operações da PF. E, como se não bastasse, Lula diz na revista Piauí (logo depois dos diários da modelo Fernanda Lima sobre sua vida de mãe) que não lê jornais, mais uma vez se gabando de sua ignorância e incentivando o povo brasileiro a seguir seu exemplo. Mas isso não o isenta de elogiar os colunistas "meio intelectuais, meio de esquerda" que são clipados para ele por sua equipe. Afinal, não é de hoje que Lula prefere não ver os problemas a enfrentá-los.CADERNOS DO CINEMAMea maxima culpa: faltou na lista de melhores filmes de 2008 justamente o melhor, Wall-E, dessa extraordinária Pixar - uma distopia com final feliz que mostra de modo lírico a terra devastada e, no universo, uma nave repleta de seres humanos sedentários e ignorantes. A primeira meia hora fica num circuito próprio de nossa memória, coisa de arte grande.O mesmo não vale para os filmes para crianças em cartaz nestas férias, como Bolt, o Supercão, que não vai além das sequências de ação. Ironicamente, o que salva a história é o olhar sobre os gatos: pois é a gata que chama o cãozinho à realidade de que ele não tem superpoderes... Gatos não são bobos.Minha filha mais velha e eu quisemos ver Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, que mantém o nível do primeiro e representa uma antiga tradição brasileira, a da comédia "de bater portas", com humor baseado menos na originalidade do que no ritmo. Tony Ramos novamente é o dono da grande cena, a do futebol - embora nada se compare ao seu momento Esther Williams no filme anterior...ZAPPINGA novela A Favorita terminou, como sempre acontece, com alta audiência nas últimas semanas, movida a mortes e suspenses. Mas a súbita ingenuidade de Flora não convenceu, até porque durante nove meses ela jamais manifestou um segundo de nostalgia. Isso sem falar no exagero das soluções banais, como as inúmeras conversas entreouvidas na reta final. Outro problema foi a irregularidade de atuações. Patrícia Pillar, Ary Fontoura, Cauã Reymond, Lília Cabral e Paula Burlamaqui seguraram as melhores cenas, enquanto os outros patinavam e alguns como Chico Diaz eram subaproveitados. O mais grave foi o destino dado à personagem de Helena Ranaldi; só faltou gravarem nela um "A" de adúltera como no romance de Nathaniel Hawthorne sobre os tempos puritanos. Esse moralismo, com tintas de melodrama latino-americano, nada acrescentou.Boa parte dos problemas deriva da duração das novelas, mas dizem que ela precisa dos 180 capítulos para dar lucro. E programas bem mais curtos, como a série Maysa, de nove episódios, cujo horário ajudou a fazer o sucesso, não garantiram menos conversa fiada e forçada. Seu discurso era sempre o de ser uma mulher "transgressora", capaz de tomar iniciativa em relação aos homens, por exemplo, mas na verdade o que ela mais gostava de fazer era cantar seus boleros e chorar o fim do casamento com André Matarazzo. O biógrafo Lira Neto mostrou as "liberdades" tomadas com os fatos; numa cinebiografia é preciso haver cuidado. E a atriz, Larissa Maciel, é talentosa e tem o mesmo olhar forte, mas me fez pensar no documentário de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, em que as atrizes precisam ser mais enfáticas em sua expressão de sofrimento do que as mulheres que realmente sofreram.LÁGRIMASPara o dramaturgo Harold Pinter, um tanto limitado ideologicamente, mas como criador um ponto luminoso no teatro moderno, com seus silêncios e lugares-comuns que não caíam no solipsismo de Beckett, embora este tenha uma veia cômica que Pinter não tinha. Para Samuel Huntington, autor da tese do "choque das civilizações", que, embora se tenha dito que estava mais certo do que Fukuyama a respeito da instabilidade do mundo pós-muro, era tão conservador quanto ele. Para Conor Cruise O?Brien, polemista de primeira. E para Tide Hellmeister, ilustrador de outro, Paulo Francis. Por falar em Francis, recebi o DVD do documentário de Nelson Hoineff, Caro Francis, em cujo roteiro inicial colaborei e que deve estrear em breve no cinema. São depoimentos de amigos e inimigos e da viúva Sonia Nolasco sobre seu comportamento e sua influência, pontuados, claro, pela música de Wagner. Francis seria o primeiro a pedir algo que não fosse apenas elogioso, ainda que alguns sejam incapazes de discordar dele.RODAPÉPara quem se queixou do preço da biografia que escrevi, Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro (Imprensa Oficial), a terceira edição está na praça em valor mais acessível (R$ 40), com capa mole e sem aquelas reproduções soltas. Quem sabe ajude mais um pouco a dirimir essa polarização tosca entre os que o veem como crítico da elite e os que o creem um conformista alienado. Os narradores de Machado fingem ser desinteressados em relação ao que contam, ao mesmo tempo que revelam seu drama nas entrelinhas. Disso vem o gênio de sua obra.Também o livro Isay Weinfeld (editora Viana & Mosley), para o qual escrevi um ensaio de introdução, ganhou nova edição, a segunda, com mais fotos recentes.LABIRINTOS DO ORGULHOLi dezenas de artigos sobre o conflito entre Israel e o Hamas, mas a verdade é que não dá para imaginar solução a curto ou médio prazo. O Hamas nem sequer reconhece a existência do Estado de Israel. E Israel, por mais que diga que aceite um Estado palestino, desde sua criação há 60 anos só fez se expandir ou reagir desproporcionalmente toda vez que foi atacado, como agora ou como no Líbano em 2006. O pretexto de "combater o terrorismo" não cola; tudo parece muito mais relacionado às eleições que ocorrerão no mês que vem. Agora, nada mais vulgar do que comparar a atuação de Israel com o holocausto nazista.Os subterrâneos do debate estão poluídos de religião, e os argumentos a respeito do direito àquela terra - por antiguidade ou continuidade - não definem nada. Além disso, ou por isso, toda a região está interligada, e o papel de países mais estáveis como Egito e Turquia para contrapor o radicalismo de Irã e Síria seria fundamental se a opinião pública israelense e palestina endossasse a moderação. Mas não é o que tem acontecido. Há mais variáveis nessa equação do que a matemática política consegue resolver.POR QUE NÃO ME UFANODeixei o passaporte cair do bolso num táxi em Pequim em agosto. Cinco minutos depois, o motorista estava de volta ao hotel para entregá-lo. Deixei o celular cair do bolso num táxi no Rio no final de dezembro. Cinco muitos depois, telefonei e ele já estava "desligado ou fora de área". Nunca mais o vi. Aforismos sem juízo Toda fronteira é artificial. Algumas nem sequer existem fora do mapa.''O mundo inteiro baixa juros, gastos e taxas; o Brasil faz o contrário. Deve ser a tal ?singularidade?''''Só faltou gravar um ?A? de adúltera na personagem de Helena Ranaldi. O moralismo nada acrescentou''

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