Avenida Q, a Vila Sésamo de adultos

Irreverente e incorreto, o premiado musical chega hoje a São Paulo trazendo adoráveis bonecos que falam muitos palavrões

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

13 de agosto de 2009 | 00h00

Foi tudo muito rápido: a atriz e cantora Claudia Netto interpretava a personagem Japaneuza, uma terapeuta ranzinza, quando percebeu um homem na plateia fazendo um gesto obsceno (levantou o dedo médio), saindo em seguida. "Foi uma reação inusitada mas, pensando bem, foi também uma vitória do texto que estávamos encenando", conta ela, divertindo-se com as diversas reações inusitadas provocas pelo musical Avenida Q que, depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, estreia hoje em São Paulo para convidados - sábado para o público.De fato, desde que se tornou a sensação na entrega do Tony (prêmio aos melhores do teatro nos Estados Unidos) de 2004, quando foi eleito o melhor musical da Broadway, Avenida Q tem despertado (muita) admiração e (pouca) ira por apresentar uma combinação original e explosiva: uma história marcada por incorreções contra gays, judeus, negros, minorias, imigrantes e desempregados, que são amenizadas ao serem proferidas por bonecos semelhantes aos que fizeram sucesso em programas de TV como Vila Sésamo e Muppet Show. "Seria um espetáculo pesado se os oito atores não dividissem a cena com 16 bonecos, manipulados por eles", comenta Charles Möeller que, ao lado de Claudio Botelho, responde pela produção geral do espetáculo.Novamente, foi o apurado faro da dupla para musicais que garantiu a montagem nacional. "Assistimos na Broadway e ficamos maravilhados com a engenhosidade dos criadores (Robert Lopez e Jeff Marx) em descobrir um caminho que permitisse exibir todos os preconceitos que marcam a sociedade moderna, mas que são, às vezes de forma hipócrita, escondidos", conta Möeller.Avenida Q acompanha a trajetória de Princeton (um dos bonecos) que, recém-formado, pretende começar a vida em um bairro de Nova York. Busca espaço na Avenida A, região de bacanas cujo preço do aluguel é incompatível ao dinheiro que carrega no bolso, até chegar a um reduto de perdedores - ali, conhece vizinhos peculiares como Brian, o comediante desempregado que é noivo da terapeuta Japaneuza; Rod, o bancário conservador que resiste em sair do armário; Trekkie, viciado em caçar pornografia na internet; Kate, graciosa professora; a fogosa Lucy De Vassa; o zelador do prédio, uma ex-celebridade mirim; e os ursinhos do mal."Apesar de a graça do espetáculo estar na presença dos bonecos, a expressividade deles só é possível por conta dos atores", acredita André Dias, que manipula os bonecos Princeton e Rod, realizando um trabalho tão espantoso a ponto de o júri do Prêmio Shell do Rio, onde o espetáculo estreou em março, tê-lo indicado na categoria de melhor ator - e Sabrina Korgut, que manipula Kate Monstra e Lucy De Vassa, como melhor atriz. "Eles, assim como o restante do elenco, conseguem usar o recurso da manipulação dos bonecos para criar uma ligação com a plateia e discutir assuntos sérios de forma irreverente", observa Charles Möeller.O espetáculo, cujas canções são interpretadas por uma orquestra ao vivo, ataca o politicamente correto com músicas como Se Ele For Gay e Todo Mundo É Meio Racista, além de cenas raras, como uma relação carnal entre bonecos - um deles é o enrustido Rod, que denuncia sua preferência sexual ao sonhar em transar com um amigo. As letras foram adaptadas ao ambiente brasileiro, o que exigiu tanto acentuar a incorreção em alguns momentos como amenizar em outros.Os bonecos, desenhados e confeccionados por Rick Lyon, responsável pelos originais da Broadway, vieram dos Estados Unidos. O aprendizado da manipulação foi torturante (veja abaixo), mas necessário para que cada movimento expressasse uma verdade. "Hoje, eu interpreto olhando para o Rod e não para o André, que está manipulando", conta Claudia que, apesar de não carregar nenhum boneco, decidiu transformar seu personagem em um."Além de cuidar do sotaque de imigrante japonês, criei a Japaneuza a fim de que tivesse vários movimentos de um boneco, como a forma de mexer a boca ou a cabeça", conta ela, que tinha dito uma frase nada correta sobre negros quando aquele espectador se revoltou e lhe apontou o dedo. "Na verdade, foi uma reação isolada, pois a peça é cosmopolita e encontra ressonância em qualquer cidade grande, como Rio e São Paulo." ServiçoAvenida Q. 140 min. 14 anos. Teatro Procópio Ferreira (671 lug.). Rua Augusta, 2.823. tel. 3083-4475. 5.ª a sáb., 21h; dom., 19h. R$ 70 (5.ª), R$ 80 (6.ª e dom.) e R$ 90 (sáb.). Até 1.º/11Preste Atenção ...na movimentação dos atores que, muitas vezes, faz lembrar a dos bonecos, especialmente na forma de mexer o corpo. ...na maquiagem da personagem Japaneuza, vivida por Claudia Netto. Criada por ela, envolve, além de uma peruca, utensílios que esticam seus olhos, aproximando-os dos de um oriental. Claudia gasta normalmente meia hora para se maquiar. ...na letra das canções, especialmente Todo Mundo É Meio Racista, que reforça o caráter transgressor do musical, especialmente por ressaltar os preconceitos de cada um. ...nos dois enormes monitores de TV localizados um em cada lado do palco: são exibidas ali, especialmente no início do espetáculo, imagens da trajetória de Princeton, o boneco principal, quando chega à Avenida Q. ...na semelhança de alguns bonecos com outros, conhecidos, especialmente do programa Vila Sésamo. Assim, Trekkie Monstro faz lembrar Come Come, enquanto Nicky e Rod se assemelham a Ênio e Beto. ...na sincronicidade entre a voz dos atores e a manipulação da boca dos bonecos. Em determinadas cenas, o dublador não está em cena, obrigando o manipulador a saber o tempo certo das falas. ...no som criado pela banda formada por seis músicos, que se esconde atrás do cenário. ...nas liberdades da tradução, que permitem aos personagens brincarem com a política nacional, além de alguns bairros de São Paulo e Rio. ...no cenário criado por Rogério Falcão e no figurino de Mareu Nitschke, que até inclui uma camisa da seleção brasileira, pendurada no parapeito de uma das janelas.

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