Elliott Erwitt
Elliott Erwitt

Avenida Paulista vira o epicentro da fotografia

A Galeria de Fotos do Sesi, que leva em média 30 mil pessoas a cada exposição, inaugura hoje uma mostra dedicada a quatro veteranos da agência Magnum e o Instituto Moreira Salles exibe retrospectiva do mito Robert Frank

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2017 | 06h00

Assim como a Santa Ifigênia é identificada como a rua dos eletrônicos e a Consolação como a rua das luminárias, a avenida Paulista está se transformando no epicentro da fotografia em São Paulo. Só este ano dois espaços dedicados a ela foram inaugurados na cidade: a Galeria do Sesi, no prédio da Fiesp, e o Instituto Moreira Salles, aberto no dia 19 de setembro com uma mostra do fotógrafo suíço Robert Frank. Hoje, dia 2, às 19h30, a Galeria do Sesi abre sua quarta exposição, Retratos, Diálogos de Identidade, que reúne 70 imagens de fotógrafos veteranos como Elliott Erwitt, contemporâneo de Robert Frank e ainda ativo aos 89 anos – como o célebre colega da série Os Americanos, que completa 93 anos em novembro.

Erwitt é um dos seis fotógrafos escolhidos pelo curador João Kulcsár. Os outros são Bruce Gilden, Martin Parr, Paolo Pellegrin, Philippe Halsman e Steve McCurry, todos representados pela Magnum, a célebre cooperativa criada há 70 anos por Cartier-Bresson e Robert Capa. Pela primeira vez no Brasil será exibida parte da histórica série Jump, do norte-americano, de origem russa, Philippe Halsman (1906-1979), que, em 1951, contratado pela rede NBC para fotografar comediantes (Groucho Marx, Bob Hope), teve a ideia de registrar os artistas saltando no ar, o que sugeriu posteriormente a série Jump, com 178 fotos, da qual participaram Marilyn Monroe, Grace Kelly e até a recatada Olivia de Havilland.

Na verdade, essa ideia de suspensão no ar é de 1947. Halsman, amigo pessoal do pintor surrealista Salvador Dalí (1904-1989), queria encontrar um equivalente das implosões presentes em suas telas e fez uma montagem em que o artista aparece pulando ao lado de três gatos voadores e um balde d’água. Em tempo: Dalí também está na mostra, mas numa outra imagem de Halsman.

Esse tipo de humor é replicado no trabalho do inglês Martin Parr, de 65 anos, que conserva algo da tradição surrealista numa série de retratos na qual ele se traveste de militar, surfista, turista em Veneza, além de posar ao lado de Messi, Putin e até de um soldado romano em frente ao Coliseu de Roma – todos falsos retratos, montados deliberadamente de modo precário e feitos por fotógrafos de rua e estúdio.

“Erwitt e Martin Parr são dois dos meus fotógrafos favoritos pelo uso do humor na fotografia”, diz o curador João Kulcsár, revelando que a exposição do americano, a terceira promovida pela Galeria do Sesi, em julho deste ano, levou ao novo espaço 31 mil visitantes – incluindo muitos estudantes e crianças. A galeria abriu com uma exposição da Magnum (fotos ligadas ao universo cinematográfico) vista por 25 mil pessoas, seguida de uma mostra dedicada a Cartier-Bresson (27 mil) e, finalmente, pela de Erwitt.

É dele a maior foto da exposição atual, que registra de maneira impiedosa uma família americana de classe média nos anos 1970. Como o colega Bruce Gilden, Erwitt anda sempre com um câmera na mão, registrando tipos que circulam pelas ruas. Uma diferença: Gilden é ainda mais impiedoso – e agressivo. Sempre em contra-plongée, aponta sua câmera para os transeuntes como se mirasse um animal selvagem. As fotos que estão na exposição são de anônimos andando em Nova York, de elegantes senhoras – visivelmente irritadas com a invasão de privacidade – a mafiosos de verdade. “Ele conhece um bocado deles e esteve até no Japão, fotografando os integrantes da Yakuza, a máfia local”, revela Kulcsár.

O italiano Paolo Pellegrin, de 53 anos, na Magnum desde 2005 e conhecido por fotografar áreas de conflito (Kosovo, Líbano), está representado na mostra por uma série de retratos intimistas de celebridades hollywoodianas (Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Sean Penn). E Steve McCurry, famoso por sua foto da menina afegã publicada pela National Geographic em 1984, comparece com uma série de retratos feitos em lugares remotos do Afeganistão, Mali, Paquistão e Tibete. “Quero fazer da galeria um espaço de leitura crítica da produção de imagens e acho que estamos conseguindo”, festeja o curador do espaço do novo Centro Cultural da Fiesp.

Terremoto visual. Se a avenida Paulista é o epicentro da fotografia em São Paulo, o Instituto Moreira Salles (IMS), inaugurado em setembro, irradia esse terremoto cultural da imagem, a partir mesmo da primeira grande exposição que abre suas portas, dedicada ao mítico fotógrafo suíço Robert Frank. A exposição apresenta, além de 83 fotos da série Os Americanos, pertencentes ao acervo da Maison Européenne de la Photographie, de Paris, um projeto desenvolvido por Frank em parceria com o editor e impressor alemão Gerhard Steidl, Os Livros e os Filmes.

A série Os Americanos foi bancada por uma bolsa da Guggenheim Fellowship. Entre 1955 e 1957, Robert Frank que ficaria associado à beat generation, percorreu 48 Estados americanos e registrou algo em torno de 28 mil fotografias que representam todos os tipos que circulavam pela América na época (1957) em que Jack Kerouac escreveu On the Road (é dele a apresentação do livro que acompanha a mostra, publicado aqui pelo IMS): caubóis raquíticos em Nova York, senhoras sofridas de Montana, aposentados deprimidos, índios aculturados e muitos outros esquecidos no meio dessa estrada perdida.Com curadoria de Samuel Titan Jr. e Sergio Burgi, a exposição de Robert Frank resume, enfim, o objetivo do IMS: organizar mostras que passem à história e sirvam à reflexão. 

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