Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Av. Paulista vira espaço expositivo para ilustrações sobre a Quarta Revolução Industrial

Trabalhos de Carla Caffé e Guto Lacaz discutem o tema com bom-humor e contexto histórico

Pedro Rocha, Especial para O Estado

06 Maio 2018 | 06h00

A partir desta quarta-feira, 9, postes da ciclovia da Avenida Paulista, em São Paulo, vão se tornar cavaletes, para receber uma exposição que vai discutir o tema da Quarta Revolução Industrial. É a quarta edição da Exposição de Maio na Paulista, promovida pela União Geral dos Trabalhadores (UGT) para celebra o 1º de maio. 

Nas três edições anteriores, o evento tratou de temas variados. A primeira, em 2015, celebrou os 30 Anos de Redemocratização do Brasil; a segunda, em 2016, celebrou os 100 Anos do Samba; já a terceira, no ano passado, representou 17 Objetivos para Transformar o Mundo

Este ano, a UGT quis debater a chamada Quarta Revolução Industrial, já em ampla discussão, inclusive já tendo sido tema de uma das últimas edições do Fórum Mundial de Davos, na Suíça. “A UGT quer mostrar que tem um futuro chegando, que pode ser bom ou não para o trabalhador”, disse o presidente do sindicato, Ricardo Patah, ao anunciar a mostra. A grande preocupação é que, por conta da tendência à automatização total das fábricas, um número que pode chegar a 40% dos postos de trabalho deve ser, em breve, eliminado completamente. 

Depois de três exposições fotográficas, a organização decidiu trabalhar com ilustrações nesta edição. Com curadoria da DOC Galeria, por Monica Maia e Fernando Costa Netto, foram planejados 30 painéis de 12 m², que vão percorrer um quilômetro da ciclovia da Av. Paulista, entre as esquinas da Rua Augusta e Alameda Campinas. Os selecionados para criar os trabalhos foram os artistas Guto Lacaz e Carla Caffé, com abordagens bem diferentes. 

“São dois artistas com linguagens diferentes, mas fizemos isso para deixar a coisa mais palatável”, explica Fernando Costa Netto ao Estado. “Quisemos tirar o Guto e a Carla da galeria e levar para a rua, aproximar a arte de milhões de pessoas.” Os trabalhos de ambos estarão em sentidos opostos da Avenida. De um lado, Carla, do outro, Guto. Segundo a organização, a estimativa é que 5 milhões de pessoas passem pela região da mostra durante o mês de exibição, que se encerra em 9 de junho. 

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Arquiteta, Carla Caffé tem uma relação muito forte com a Avenida Paulista - já escreveu um livro-imagem que percorre o passeio, que é o mais conhecido cartão postal de São Paulo. “Tenho um grande apego à Avenida Paulista. Para mim, é um local de estudo, de desenho. Foi um grande presente”, diz sobre o convite para o trabalho, que, para ela, que teve apenas duas semanas para idealizar seus painéis, foi um desafio. “Tive que estudar a proposta, porque confesso que não tinha claro o que é a Quarta Revolução Industrial. É uma realidade muito mais próxima do que entendemos.” 

Apesar de animada, Caffé está apreensiva com uma mostra tão grande. “Queira ou não, quem passar pela Paulista vai ver a exposição. Por isso, senti que precisava fazer como uma campanha visual. Acho interessante ser uma mídia tão de massa.” Para falar com um público tão diverso, sua estratégia foi realizar uma contextualização histórica, situando alguns momentos da humanidade. “Meu segundo quadro traz ferramentas primitivas, que são, assim como computadores, artefatos criados pelo homem.” 

Seus painéis são numerados e seguem uma linha cronológica. para tratar principalmente no papel histórico da mulher ao longo de outras revoluções por qual passou a humanidade. “Ninguém fala da mulher que produz, participativa. Entender que existem papéis femininos que não são falados.”

Logo no primeiro trabalho, Caffé apresenta o momento em que o homem deixa de ser nômade e passa a ser sedentário. “Uma das grandes revoluções da humanidade é a agricultura, criada pela mulher, que começou a entender e observar a natureza. Acho interessante ver por essa perspectiva.” Já outro trabalho fala da não tão citada participação das mulheres na indústria bélica da Segunda Guerra Mundial. “Elas não estavam apenas em casa recebendo cartas. Elas estavam na indústria, manufaturavam as balas. Faziam aquilo que poderia matar seus próprios maridos ou filhos.”

Para a artista, a forma como a mulher é tratada ainda hoje, com um número ainda alto de homicídios domésticos, é um dos seus grandes questionamentos. “Estamos na Indústria 4.0, mas ainda vivemos realidades atrasadas. Morre mais mulher dentro de casa que na rua. A pergunta é essa, será que estamos tão evoluídos assim?”

Bom-humor. Para trazer outro olhar, mais leve, sobre a discussão, o cartunista Guto Lacaz resolveu apostar no bom-humor para tratar o tema. “Não quis tocar nos assuntos mais pesados. Meus desenhos são bem-humorados e poéticos”, afirma. O tema, porém, ele assume que é complexo. “Dá um medo por ser um assunto difícil, mas que tenho estudado e já estava produzindo desenhos à respeito.”

No embalo de pesquisas sobre inovações tecnológicas, Guto afirma que já havia três desenhos prontos antes mesmo do convite. Os outros 12 são originais. “Estudei um pouco de eletrônica e vi filmes de ficção científica.” O objetivo do artista foi chegar em imagens simbólicas, que também marcassem o contexto histórico. 

Os desenhos de Guto incluem imagens que brincam com fábricas, o rádio e a televisão, e ainda com situações comuns do imaginário popular, como a maçã caindo na cabeça de Isaac Newton - que em seu desenho vem de um drone, e não de uma árvore. Sua parte da exposição termina, por pedido da organização, com um interessante pensador robótico, inspirado na clássica obra de Rodin.

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