Autora acredita que Obama é o homem certo para selar paz

Lançado há dois anos nos EUA e agora traduzido no Brasil, A Cicatriz de David transcende uma história particular para ganhar contornos de tragédia coletiva. Ela já começa com uma garota beduína desafiando as convenções e atraindo a atenção de dois irmãos. Dalia ganha um filho, vai morar numa aldeia tomada durante a expansão territorial de Israel, perde-o para um oficial israelense e mergulha na demência após testemunhar tanta destruição. Susan Abulhawa sabe do que fala. Passou por experiência semelhante antes de fixar residência nos EUA e criar uma ONG para ajudar crianças palestinas. A seguir, a escritora fala um pouco dessa jornada.Muitos analistas políticos costumam associar sionismo e limpeza étnica, usando ainda outras palavras fortes para se referir ao conflito entre israelenses e palestinos. Como você vê essa análise?A Palestina sempre foi um lugar multiétnico e multicultural, onde conviviam judeus, muçulmanos e cristãos, antes que Israel se estabelecesse no território e expulsasse metade da população nativa. O fato é que a comunidade internacional não faz nenhuma objeção ao controle das fronteiras, da economia e da água dos palestinos por Israel, que deixa 1,6 milhão de pessoas em Gaza num estado de escandalosa miséria. Mas acredito que as pessoas conscientes, aí incluídos muitos israelenses, devem deixar de lado esse debate sobre um estado binacional e pensar mais em termos de identidade cultural, herança e direitos básicos dos palestinos.Mas como fica a questão das agressões dos terroristas? E o Hamas?Israel subjugou os palestinos e subestimou sua capacidade de luta. Israel finge que os palestinos não existem. Hamas é apenas um pretexto como outro qualquer para atos de violência, porque os israelenses nunca fizeram segredo de suas metas políticas desde que Golda Meier assinou a Declaração de Independência, em 1948. O fato é que os palestinos estão pagando até hoje pelo sangue dos judeus mortos pelos nazistas. Quanto ao Hamas, não acho que escolheu o melhor caminho, mas foi eleito democraticamente, exatamente como Bush, que eu desprezo, mas que nunca agredi. Se existe um homem com um desejo genuíno de resolver pacificamente a questão é Obama, disso estou certa. Quando A Cicatriz de David foi lançado na França, em março do ano passado, o Salon du Livre abriu suas portas para homenagear os 60 anos de Israel e não convidou nenhum escritor palestino. Como você se sentiu?Parece que o Salon du Livre resolveu riscar a Palestina do mapa. De qualquer modo, a política não é o único meio de se fazer ouvir. Fico feliz quando recebo e.mails de leitores que dizem ter entendido a questão palestina só depois de ler A Cicatriz de David, isso quando há tantos bons livros de ensaístas e historiadores sobre o assunto.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.