Autor antecipou o ''faça você mesmo''

Experiência musical de José Agrippino, viagem alucinógeno-estética, mostra simultaneidade com as vanguardas

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

08 de novembro de 2008 | 00h00

José Agrippino de Paula escreveu, nas costas da caixa da fita que contém o disco Exu Encruzilhadas: "Não ouça música, bicho. Crie seu barulho." Antecipava assim, em meia dúzia de anos, o mandamento maior do punk rock ("Do it yourself", faça você mesmo), um pressuposto que aconselhava os jovens a se afastarem daquela produção industrial megalomaníaca da época, retomando as rédeas de seu imaginário e de suas vidas. Ouça a música de AgrippinoO som é maluco, mas o formato que Agrippino vendia é o de um elepê convencional, com 10 faixas que o artista recomenda "ouvir curtindo altíssimo", segundo anotação no verso da fita. Um dos primeiros adeptos da pop art norte-americana, atento às experiências de Andy Warhol e Rauschenberg (referências que levou ao paroxismo na sua obra-chave, o livro PanAmérica), o artista remete a esse universo pop em pelo menos uma música, Surfista Prateado, menção ao personagem dos quadrinhos criado por Stan Lee.O "elenco" que gravou o disco (ou a viagem psicodélica alucinógeno-musical) é creditado com a seguinte lista: Agrippino e sua mulher, a coreógrafa e bailarina Maria Esther Stockler, além de Rosária, Bellonzi, Lola, Pedro, Filipo, Cidinho, Roguetti, Guilherme, Jimi, Rozana, Laiz, Marcelo, Zé Luiz, Erika, Elúzio, Zé Eduardo, Gonzaga, Caldas, Sony, Akay (e, ao final da lista, ele relaciona uma entidade, o próprio Exu).Referência tropicalista, elogiado pelo músico Caetano Veloso e pelo físico Mario Schenberg, considerado por Carlos Heitor Cony um predecessor do nouveau roman de gente como Allain Robbe-Grillet, José Agrippino de Paula escreveu um livro fundamental da literatura dos anos 60, PanAmérica. Pelo impacto da obra em gerações posteriores, teria sido suficiente a publicação deste livro. Mas Agrippino fez muito mais. Fez filmes de grande influência, como Hitler Terceiro Mundo e Céu Sobre Água, e inventou uma tradição teatral com o espetáculo Rito do Amor Selvagem - aquela bola gigante "pilotada" por alguém no seu interior e que se joga para a platéia, marco do som do grupo americano Flaming Lips, foi uma invenção de Agrippino.Segundo Sérgio Pinto de Almeida, da editora Papagaio, que republicou PanAmérica em 2001 e ajudou a tirar Agrippino do ostracismo em que se encontrava, há ainda novidades saindo do baú do artista para ajudar a compor um painel completo de sua personalidade.Almeida localizou os originais de sua peça Rito do Amor Selvagem, de 1969, que o ator Stênio Garcia considera uma das suas mais completas experiências cênicas, e está com a novela inédita Os Favorecidos de Madame Estereofônica, escrita para a TV (e que Agrippino deixou registrada em 173 cadernos universitários).Agrippino viveu um período de intensa criatividade nos anos 60 e 70. Diagnosticado como um caso agudo de esquizofrenia nos anos 70, passou a viver isolado no Embu, em São Paulo. Em 2006, um grupo de psicanalistas, liderado por Miriam Chnaiderman, foi até sua casa com um projeto médico-artístico, e acabou produzindo o documentário Passeios no Recanto Silvestre. Muita gente sofre ainda hoje influência do autor, como o carioca Botika, autor de Uma Autobiografia de Lucas Frizzo, ou Ademir Assunção, de Adorável Criatura Frankenstein. ServiçoCiclo José Agrippino de Paula Hoje: Hitler Terceiro Mundo Amanhã: Céu Sobre Água e Candomblé no TogoSegunda: Sinfonia Panamérica (direção de Lucila Meirelles) e Maria Esther: Danças na ÁfricaSescTV - Net Digital Canal 137. Sempre à meia-noite

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