Ausência de Batman revela preconceito

Ao ignorar longa de Nolan, votantes optaram por produções mais 'sérias'

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

A grande surpresa entre os indicados na categoria de filme é a ausência de Batman, de Nolan. A Academia de Hollywood ignorou o blockbuster que fez a maior bilheteria de 2008 nos EUA, concentrando-se em filmes de perfil, digamos, mais sério: além de Quem Quer Ser um Milionário? e do favorito Benjamin Button, concorrem Frost/Nixon, Milk e O Leitor. Essa conceituação de "sério" fica assim, entre aspas, porque o Batman de Nolan é prova de que há vida inteligente no cinemão. Mas a lista ilustra o preconceito que Hollywood compartilha com a maioria de seus críticos. Eles também se recusam a reconhecer a inventividade de Batman, ou a reconhecê-lo como é: um filme de autor, o melhor de Nolan. A ausência de Gomorra, de Garrone, e Última Parada 174, de Bruno Barreto, sinaliza para outra tendência. A violência está em baixa entre os votantes da academia, mesmo que se faça presente em alguns dos demais indicados e, como em Valsa com Bashir, de Folman, na categoria de filme estrangeiro. Não é a violência que talvez esteja em baixa, mas a forma de encará-la. Bashir usa o formato da animação, mas essas fronteiras (documentário x ficção, live action x desenho) andam cada vez mais embaralhadas.O melhor filme é Benjamin Button, mas Quem Quer Ser possui encanto especial, com a história do herói que começa na m... e termina num musical de Bollywood. No retrospecto, Fincher é melhor diretor do que Boyle, o que não conta para os votantes. O processo de escolha pode ser democrático, mas isso não inibe às vezes a injustiça. Rourke, de O Lutador, inicia a disputa com certa aura de favoritismo, mas ele não é melhor do que Pitt nem Penn, indicados por Benjamin Button e Milk. Langella está excepcional em Frost/Nixon. Sua vitória não seria só merecida, mas uma forma de se desculpar pelo reconhecimento que Langella não teve por sua criação em Boa Noite, e Boa Sorte.Nem se pode dizer que Kate Winslet, que concorre como atriz, seja favorita: as outras indicadas são ótimas. Até a entrega dos prêmios, em fevereiro, as discussões serão animadas. Muitos favoritismos vão se consolidar, ou desmoronar. Mas parece indiscutível que Ledger receba o Oscar pelo Coringa. Dentro da excelência de Batman, seria reconhecimento merecido ao que o filme tem de mais superlativo (já que tudo nele é muito bom).

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