Aura de obra perfeita paira sobre Kind of Blue

A chave de tudo, para experts e músicos, estava na capacidade arregimentadora do líder Miles Davis; 'Coltrane era o mais assustador', confessa hoje Jimmy Cobb

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

05 de maio de 2009 | 00h00

Nos 55 minutos e 16 segundos de Kind of Blue, nada está fora do lugar. Cada elemento, a introdução do baixo em So What, o solo de Coltrane em Blue in Green. Até a ordem das músicas é perfeita. Cabe ali a sentença de conter pelo menos três baladas impecáveis: Blue in Green, All Blues e So What. E músicas de uma vibração interna incomparável, como Freddie Freeloader e Flamenco Sketches. Um sétimo homem participou das gravações, o pianista jamaicano Wynton Kelly, morto em 1971 (mais chegado ao swing, ele tocou na primeira música gravada, Freddie Freeloader). "Nós éramos como velhos amigos, sabe? Miles e nós", diz Jimmy Cobb, que não glamouriza nem doura demais a pílula do disco de que participou (e que se tornou o maior clássico de um gênero, o jazz). Se lhe perguntam como é que uma obra tão espontânea, gravada em apenas duas sessões, um trabalho (em tese) pouco burilado, pouco esmerilhado, se tornou eterno, ele apenas sorri.Então, como é que se faz tanta teoria em cima dessa obra? As referências à música impressionista francesa, por exemplo. Aos compositores que Bill Evans, então um jovem de 25 anos, apresentou a Miles, como Maurice Ravel e Béla Bartók. A chave, segundo os especialistas, estava na grande capacidade arregimentadora de Miles Davis, no faro para colocar os homens certos no lugar certo."Miles fazia coisas assim. Às vezes, levava John Coltrane e Sonny Rollins ao mesmo tempo a um estúdio", conta Cobb, que julga que, naquela época, "Coltrane era o mais assustador" de todos. Segundo o pianista Larry Willis, Miles Davis tinha uma fama terrível, mas não era muito diferente dos outros líderes de seu tempo. "Era como todo bandleader da época. Ele nos contratava, depois dava a direção e nos deixava livres para criar", conta Willis.O próprio Jimmy Cobb não parece gostar muito do endeusamento de uma obra ou de um músico. "Sabe, há tantos artistas extraordinários, e não vemos tanta menção ao nome deles. Artistas como Sonny Clarke, por exemplo. Infelizmente, a vida escolhe alguns alvos", diz o baterista.Obviamente, Miles Davis era do tipo que, por decisão pessoal, se tornava o centro das atenções. "O próprio Miles dizia que ele tinha mudado a direção da música pelo menos quatro ou cinco vezes, ao menos no jazz. Nos anos 40, fez isso com as sessões de The Birth of the Cool; nos anos 50, trouxe o hard bop em faixas como Walkin? e Bag?s Groove. Seu primeiro mergulho num território desconhecido do jazz conhecido como ?modal? foi com Kind of Blues. Permanece como seu mais conhecido e mais vendido álbum", diz Ashley Kahn, que se tornou uma espécie de ?biógrafo oficial? do livro - que agora vai ser lançado na Finlândia (detalhe: traduzido). Kahn foi casado com uma paulista e conhece bem São Paulo, onde já esteve três vezes, segundo contou. "Há muitas razões para a longevidade desse disco. Um crítico uma vez lembrou de seu apelo para o público que não gosta de jazz: Kind of Blues é muito prazeroso, quase um papel de parede sonoro quando tocado baixo, mas torna-se grande arte quando tocado alto." A banda de Jimmy Cobb não toca tão alto, mas Jimmy se lembra muito bem daquela pegada. O show é de fazer o mais durão dos jazzistas ensopar o lenço. O repórter viajou a convite do Bridgestone Music Festival e do Bourbon Street Music Club

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