''Atualidade de edificador do novo mundo''

Os Sertões chegou às livrarias do Rio em 2 de dezembro de 1902 e já no dia seguinte o crítico José Veríssimo assinava uma resenha no Correio da Manhã. Na mesma data, Euclides respondeu em carta a Veríssimo, discordando de algumas de suas observações. Foi tudo muito rápido. Estrondoso para a época, esse sucesso se deu, em parte, devido à resenha de Veríssimo. Mas essa análise foi somente a primeira de uma extensa e significativa fortuna crítica da produção euclidiana. Veríssimo assinalou que o autor assistira ao episódio que descrevia e referiu-se ao seu saber enciclopédico. Mas criticou o emprego de termos técnicos: ''Um boleio arrevesado de frases, com arcaísmos e, sobretudo, neologismos, texto repleto de expressões obsoletas ou raras.'' Ao que Euclides reagiu, argumentando que o consórcio entre a ciência e a arte seria ''a expressão mais elevada do pensamento humano''. Mas, voltando ao período de lançamento do livro, Coelho Neto, escritor já importante, publicou no início de 1903 dois artigos no Estado, nos quais definiu Os Sertões como uma obra magnífica de ''ciência e arte''. No entanto, alguns críticos sustentaram que, muitas vezes, preciosismos literários invadiam a cena analítica.O crítico do Correio da Manhã, José Maria Moreira Guimarães, autor de outros quatro artigos publicados em 1903, definiu Os Sertões como obra de imaginação: ''Ainda não se afirmou que esse belo trabalho é mais produto do poeta e do artista do que do observador e do filósofo. Por igual não se encontram no livro as virtudes da imaginação e os atributos da reflexão.'' Moreira Guimarães era oficial do Exército, engenheiro de formação, tinha convivido com Euclides na Escola Militar. Ao que parece, teria ficado incomodado com a denúncia que Euclides fez dos crimes cometidos pelo Exército em Canudos. Fez sua análise da narrativa euclidiana formulando cerca de 20 críticas a Os Sertões, destacando-se, entre elas, algumas contradições. Observou que Euclides escreveu que Antônio Conselheiro ''pregava contra a República'', embora sua ação ''não tivesse o mais pálido intuito político''. Opôs-se, também, ao ponto de vista euclidiano de que a República foi um fato imprevisto e sem conexão com a história do País. Sua crítica revelava também certa oposição de setores do Exército às alusões de Euclides à Campanha Militar de Canudos. Isso tanto é verdade que, no fim dos anos 50, Dante de Melo publicou pela Editora da Biblioteca do Exército um livro chamado A Verdade Sobre Os Sertões.Do ponto de vista literário e da relevância cultural, é um livro que marca e atravessa a história brasileira do século 20. É célebre a figura de Getúlio Vargas, em Canudos, com Os Sertões debaixo do braço. É igualmente significativo o discurso de Juscelino Kubitschek, às vésperas da inauguração da nova Capital Federal, dizendo que Euclides nos apresentara um sertanejo ligado às fases antigas da evolução social e, assim, produtor de ruínas, ao passo que Brasília era a comprovação de que o sertanejo pode construir cidades modernas e modernistas.Quando Euclides tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 1906, Sílvio Romero fez um discurso pouco acadêmico, afirmando coisas um tanto absurdas, mas verdadeiras. Na frente do presidente da nação, Afonso Pena, disse que a República havia restabelecido os governos oligárquicos nos Estados, ''governichos criminosos'' dos quais a sociedade só iria se livrar pelo assassinato. Lembrou que o País passava por uma revolução social desencadeada pela Abolição, no século 19, mas que a República havia obstado essa revolução, impedindo que a sociedade brasileira ajustasse suas contas com o seu passado colonial. Segundo Romero, esse roteiro histórico da nação teria sido impedido por um golpe político conservador - a República. Afirmou que a nossa elite cultural e política se aproveitou dos múltiplos aspectos de Os Sertões para eleger e exaltar imagens literárias, escondendo a crítica de Euclides à sociedade brasileira. Terminou dizendo que, ''apesar das imprecisões da crítica indígena'', a Academia estava recebendo um escritor que sabia colocar não apenas pronomes, mas também ideias. Neste ponto caberia perguntar: como o estilo literário poderia impedir que a denúncia social de Euclides fosse ouvida? De fato, Afrânio Peixoto, no artigo Euclides da Cunha, Sociólogo para o jornal A Manhã, em 1942, portanto, em pleno Estado Novo, sustentou que ''a estesia do estilo de Euclides o impediu de ser ouvido e de certa forma escondeu a denúncia do crime de uma nacionalidade''. As interpretações da obra de Euclides modificaram-se à medida que concepções filosóficas e históricas que estavam na base de suas análises também passaram a ser criticadas e combatidas. Leituras inspiradas em novas ideias entendiam que os textos euclidianos eram carregados de pressupostos de uma falsa ciência do século 19. Mas a obra euclidiana seria salva pelo esforço de seu autor de tentar uma compreensão histórica do País, pelas qualidades literárias e, sobretudo, pelo rigor de sua observação sobre sociedades situadas ''à margem da história''.Se as leituras da obra euclidiana modificaram-se ao longo desses 100 anos, alguns princípios analíticos essenciais permaneceram, como a concepção de que a literatura euclidiana é um composto de arte, observação social, ciência ou pretensão científica. Euclides foi visto, pela maioria dos seus analistas, como artista e intérprete do Brasil, mas raramente como produtor de um novo universo na cultura brasileira, os sertões. O termo sertão chegou ao Novo Mundo nas caravelas de Pedro Álvares Cabral. Mas o conceito foi absorvido e transformado pela experiência histórica e social brasileira. Pois Euclides da Cunha está entre os mais importantes edificadores desse mundo novo. Vem daí o poder de seu verbo e a razão de sua atualidade.

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