Atrevimentos e milagres da diva Patricia Barber

Cantora norte-americana consegue a proeza de dedicar disco aos standards de Cole Porter sem recorrer a fórmulas gastas ou a inovações pouco originais

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Contam-se nos dedos os nomes dos compositores populares de gênio efetivo. Aqueles que conseguem produzir, em quantidade e qualidade, essas verdadeiras cápsulas musicais que constituem paradigmas de criação e capacidade de empatia instantânea com o público. Este seletíssimo grupo se concentrou entre os anos 10 e os 50 do século passado nos EUA. Um punhado de iluminados, que incluiu os irmãos George e Ira Gershwin, Irving Berlin, Jerome Kern, Richard Rodgers e seus parceiros sucessivos Lorenz Hart e Oskar Hammerstein II.O problema é que os grandes intérpretes, quando não os próprios criadores, imprimiram uma marca tão forte nessas canções que se torna praticamente impossível inovar neste olimpo nos dias atuais. Deixei de fora o nome talvez mais estelar, tão bom letrista quanto compositor: Cole Porter. É preciso coragem para dedicar hoje um CD inteiro às suas maravilhosas canções sem cair no ridículo de clonar as geniais matrizes antigas ou então propor inovações beirando o besteirol. Pois a cantora-pianista norte-americana Patricia Barber encarou o desafio, confiante no seu taco e levando em conta o homenageado. Até porque este seu décimo CD é o primeiro não-autoral de sua carreira. Barber é uma "cantautora": costuma compor a música, escreve as letras e interpreta suas canções desde o final dos anos 80. Ela mesma produz de modo independente as gravações. E deixa a distribuição com a Blue Note, como acontece com este Cole Porter Mix.Suas letras são sofisticadas. Citam Foucault, Deleuze e Derrida, mas não se lambuzam desses papos-cabeça. Ela faz música de alta qualidade e capaz de impactar o público. Como os notáveis acima citados. É forte o que vou afirmar. Mas ela nos convence de que há vida inteligente após as magníficas décadas em que reinaram divas como Sarah Vaughan, Carmen McRae e Ella Fitzgerald. Patricia Barber é uma dessas vozes predestinadas a anunciar o novo. Conhecem o passado, mas não o clonam. Assumem riscos. É o caso desse CD. Em vez de ser aspirada para o universo fortíssimo de Cole Porter, ela consegue o prodígio de recriar, à sua maneira, standards como You?re the Top ou Just One of Those Things. O milagre é a música não ser distorcida nem se limitar a repetir padrões já gastos de interpretação. Na primeira, ela retoma a antiga tradição de acrescentar versos aos já geniais de Porter: enfia alusões a seu credo artístico, sexual e político. Just One of Those Things transforma-se num vertiginoso tour de force, que se inicia só com voz e contrabaixo, até a entrada do frenético e fantástico sax-tenor Chris Potter, levando-nos a um envolvente improviso. Quando a voz afinadíssima de Patricia nos traz de volta a Porter, o sax emoldura um final entusiasmante. Mas Patricia vai mais longe no atrevimento. Interpreta três composições próprias de sabor coleportiano. Afinal, como ela mesma diz em seu site, "é preciso ter peito para colocar meu próprio material num disco que faz um tributo a Porter". "Mas eu escrevo como ele. Aprendi muito com ele. Divido as sílabas como ele." As letras jogam com o truque preferido de Porter: jogar com metáfora em cima da repetição de perguntas ou colocações, num delicioso jogo lingüístico de espelhos e de significados. No site www.patriciabarber.com dá para vê-la em ação em vídeos em que interpreta The New Year?s Eve Song; uma versão em duo com contrabaixo na Itália de Snow; e uma surpreendente versão de piano-solo de Someday My Prince Will Come. Vale a pena.

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