Atento leitor

Uma das coisas que mais me espantam na reação de alguns leitores é a opinião de que não existe motivo para alguém emitir em público uma... opinião. Obviamente, o que eles querem é ouvir alguém dizer o que eles querem ouvir. Se não diz, não tem serventia. Quase toda vez em que faço uma crítica ao governo Lula, por exemplo, aparece um leitor por email, carta ou no blog que diz que não se deve falar mal de um presidente que tem 70% de popularidade. O pior é que ele argumenta em nome da democracia: se a maioria gosta da atual gestão, quem não gosta deve não apenas aceitar, mas principalmente se calar. Por essa "lógica", qualquer político reeleito é imune a crítica; portanto, a maioria dos políticos brasileiros - veja o índice de reeleição nos cargos do Executivo e Legislativo - não pode ser criticada. Agora olhe que engraçado: a mesma maioria, em pesquisas de opinião, diz não confiar nos políticos brasileiros...Lembro quando critiquei a emenda da reeleição não porque sou contra essa possibilidade, adotada nas mais diversas democracias, mas porque veio embalada no oportunismo tucano de garantir a continuidade de Fernando Henrique Cardoso. Veio dissociada de uma reforma política que ao menos garantisse o fim do nepotismo e da impunidade e a redução da fisiologia e da multiplicação de partidos (há nove partidos com força no Brasil, o maior deles o PMDB, que nem sequer precisa ter candidato próprio à Presidência da República), entre tantas mazelas do sistema brasileiro. Numa democracia ainda tão imatura como a nossa - embora os artigos da imprensa jurem o contrário -, o voto toma o lugar da opinião. O máximo de participação que os cidadãos podem querer é o de apertar o botão das urnas eletrônicas, aliás as melhores do mundo.Fazer um raciocínio que vá um pouco além da política binária soa ofensivo para esses leitores. Mesmo os que sabem o valor do debate público - que no Brasil é muito confundido com debate promovido pelo poder público - ficam embananados diante de algumas idéias. Outro dia um leitor me perguntou, entre surpreso e intrigado: "Você é socialista?" Respondi que sempre fui um crítico do socialismo, ao menos desde que saí da adolescência; e que não sou nem mesmo social-democrata, mas algo entre isso e o liberalismo econômico, uma "terceira via" que no Brasil ainda não foi criada para enfrentar a realidade do Brasil. Depois é que me dei conta do porquê da pergunta: o leitor estava incomodado com o fato de que um crítico do PT fosse um defensor de Barack Obama ou, para ser mais exato, um crítico dos republicanos dos EUA.Certamente ele me confundiu com outras pessoas. Eu fui contra a invasão do Iraque; nunca defendi o Estado Mínimo; não acho que o problema de Lula seja sua origem social; não sou contra programas assistencialistas; não acho que no DNA de cada indivíduo brasileiro esteja escrito que se trata de um povo inviável; não olho para uma favela e sinto medo ou raiva; sou contra a moral conservadora, religiosa e belicista dos anos Bush; e também não fiz profecias sobre a derrota de Lula e a vitória de McCain. Só quem não me lê com atenção pode achar que sou "de direita". Mas aqueles que se dizem "de esquerda" não aceitam que eu considere Obama mais preparado - ou melhor, que eu considere importante que um político seja preparado - e mais correto do que Lula. Uma das qualidades de Obama, que ao contrário de Lula teve sua votação mais expressiva nas regiões mais desenvolvidas, é justamente fugir a esses falsos dualismos. Democratas são a favor de maior carga tributária e republicanos são contra a liberdade de fazer aborto; Obama, não.Além disso, independentemente de comparações com outros países e épocas, a incompetência e a corrupção do governo Lula são motivos para crítica constante. Desconfiar do poder é a vocação histórica da imprensa numa sociedade livre e democrática. A popularidade de Lula vem do fato de que ele não causou o estrago que alguns diziam que causaria - embora ele mesmo tenha reconhecido que se tivesse sido eleito antes de 2002 o Brasil teria saído perdendo - e de que pegou um período bom da economia mundial, no qual as medidas de membros do seu governo e do anterior permitiram embarcar. A média de crescimento do PIB é apenas um ponto porcentual acima do governo FHC e, mesmo assim, escuto quase todo dia de intelectuais brasileiros que "pelo menos Lula está distribuindo renda". Parece até que faz isso pessoalmente...Nos jornais de quase todo dia, porém, há índices que qualquer leitor atento - essa minoria - sabe interpretar com o devido ceticismo. Nesta semana, por exemplo, o Ipea divulgou que a renda do trabalhador aumentou 1% em seis anos, enquanto os impostos aumentaram mais de 7%. Pobre cidadão, onde você acha que essa diferença foi parar? Se quer uma dica, olhe o sorriso estampado no rosto dos donos de bancos brasileiros - e não se esqueça de incluir os dirigentes do Banco do Brasil, prestes a se tornar maior que o Itaú Unibanco, com outra parceria de petistas e tucanos. Agora me diga se os juros da sua conta corrente vão ficar abaixo de 10% ao mês... É, amigo, o Brasil tem a mulher com o mais belo bumbum do mundo e é o campeão da agiotagem legalizada.Nem só na política os leitores ficam confusos com a posição do colunista. No blog, vivo respondendo "eu não disse isso, disse aquilo". Escrevi aqui há duas semanas um texto, "De Emma a Amy", que virou polêmico. Até aí, ótimo: polêmica lembra pólen e a função do pólen é fertilizar. Mas às vezes ele não acha flor onde possa fazer o pouso. Muitas mulheres gostaram, cientes de que eu estava elogiando a aversão feminina ao tédio que tantos homens encarnam, mas uma parte se dividiu entre duas reações: ou acharam que eu estava defendendo Amy Winehouse e Carla Bruni, que segundo uma leitora seriam "Amélias melhoradas", ou que estava criticando as mulheres em geral, pelo mesmo motivo. Bem, se entre Obama e McCain sou Obama, entre homens e mulheres voto nelas sem piscar. Mas pelo visto não é redundante - como imaginei que fosse - apontar a covardia e a frivolidade dos homens. Eles que me aguardem.Outro assunto que sempre provoca reações mistas, em que o autor é acusado de pertencer ao mesmo tempo a campos opostos, é a ciência. Tanto no texto chamado "Guetos mentais", que entre outros temas tratava do caso Eloá, como naquele sobre diversos livros de ciência, "Cérebro, floresta, cosmos", alguns leitores se manifestaram seja para dizer que sou um insensível que não vê o valor da religião, seja para achar que tenho medo de afirmar que o homem é um animal como qualquer outro, para não dizer inferior aos outros. Lamento frustrar ambos e também lamento frustrar os que gostam do meio-termo conciliatório, condescendente e conveniente. Não concordo com essa cruzada ateísta que supõe que religiosidade é uma etapa evolutiva da humanidade a ser superada, mas não venha dizer que o mal-estar das religiões com a ciência não existe. Canso de receber mensagens assegurando que a Evolução de Darwin é "apenas uma teoria", não uma demonstração empírica do funcionamento da natureza.Discordâncias à parte, muitos desses leitores são valiosos porque expõem suas opiniões, tentando fundamentá-las. Isso é bem superior ao comportamento que citei na primeira linha, o dos que simplesmente não entendem que exista esse troço chamado opinião. Muitas vezes isso vem travestido em observações como "não se pode generalizar", "não se pode comparar", etc. Sem generalizações e comparações pertinentes, o que é opinião então? Outro subterfúgio é dizer algo como "essa não é sua área" ou "fale só de cultura", como se eu não usasse meu tempo estudando o assunto do qual vou tratar. (Uma vez li quase 2 mil páginas de dezenas de autores para fazer uma única coluna de 150 linhas. Houve quem se queixasse de que mencionei nomes demais.) O confronto educado de idéias é fundamental. O leitor desatento é freqüente, mas o mau leitor é aquele que se importa menos com elas do que com a pessoa que as escreveu.MEA-CULPANão chego a ser um "gaffeur" como Bush e Lula, mas a pressa é amiga dos lapsos. Orson Welles fez imersão no teatro britânico e despontou ali, mas nasceu em Kenosha, Wisconsin. E o bisneto de John Adams, naturalmente, é Henry Adams, ensaísta e historiador brilhante, autor da obra-prima A Educação de Henry Adams. O pior é que são dois dos meus maiores ídolos.POR QUE NÃO ME UFANODa arquiteta e leitora Catherine Otondo, sobre a campanha à Prefeitura: "Parece que se trata de pensar a questão da mobilidade com soluções quantitativas, que visam apenas aumentar a malha viária: mais pontes, mais viadutos, mais túneis, cujo resultado é um emaranhado de asfalto sem dono. O sistema que temos entrou em colapso, estamos novamente diante de uma bifurcação histórica, e para escolher o bom caminho precisamos mudar de direção e partir de uma lógica coletiva, sustentável e democrática. Um plano que tem o raciocínio baseado em circulação de veículos não tem visão de futuro."

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