Divulgação/Atraves.tv
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Associação Brasileira de Críticos de Arte repudia tentativas de censura

'Como ser livre tentando calar o outro?', questiona a entidade em comunicado

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2017 | 15h46

A Associação Brasileira de Críticos de Arte enviou à imprensa uma nota repudiando tentativas de cerceamento de liberdade de expressão artística no Brasil. "Frente ao que vem ocorrendo no campo das artes visuais em alguns estados do Brasil em termos de censura, a diretoria da ABCA está divulgando uma posição da Associação", escreveu a presidente da entidade, Maria Amelia Bulhões, em um e-mail.

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A nota vem num momento em que uma performance com um homem nu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), gera gritaria nas redes sociais (foto acima); alguns dias depois que um advogado pediu o cancelamento de uma peça de teatro por considerá-la um "escárnio" (e a Justiça negou a censura); e em meio toda à polêmica que envolve a exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença da Arte Brasileira, em Porto Alegre.

Veja a íntegra da nota:

"A Associação Brasileira de Críticos de Arte, ABCA, ocupa um lugar historicamente importante na luta pelo direito à manifestação livre de ideias do qual não abrimos mão. Neste momento em que ações de maior e menor magnitude atentam contra a livre exposição de obras de artes visuais, não podemos deixar de nos manifestar. Tornamos pública nossa posição: lutamos por uma sociedade plural constituída pelo debate, pelo dissenso e plenamente fortalecida nas mais variadas formas de expressão da cena contemporânea. Somos contra qualquer forma de censura, pois ela restringe a liberdade de expressão e do conhecimento e tenta retirar da arte sua potencialidade de dissidência e ruptura. Como ser livre tentando calar o outro.

As práticas artísticas contemporâneas expõem as contradições do nosso mundo e do nosso tempo. Elas se expandem mais além de seu próprio campo e fogem ao consenso, elas exigem um pensamento aberto. Seu propósito não é apresentar modelos nem dar respostas às muitas questões que se colocam em nossa sociedade, mas trazê-las à tona para reflexão. Esta arte em fluxo permanente estabelece conexões, desafiando-nos a explorar os limites do preestabelecido. Uma arte que se compromete com novas compreensões da realidade, preservando o lugar do desejo e da utopia. Em uma oposição total aos atos de censura, assumimos a defesa da possibilidade de a arte atuar como elemento desestabilizador das zonas de conforto e das atitudes previsíveis.

Evitar o dissenso proibindo a exposição de obras de arte é uma violência com a qual não podemos concordar, a censura é uma ameaça que paira sobre nossa sociedade. Não queremos entrar em um período trágico com a restrição de ideias, sistemas filosóficos e intervenções estéticas. O próximo passo após essas proibições pode ser a anulação dos indivíduos, em inúmeros casos com tortura e assassinato. Temos o dever de denunciar esses atos que contrariam as práticas democráticas que nosso país merece e precisa vivenciar."

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