As vidas secas vindas da África

Se o Vento Levanta a Areia mostra a tragédia do continente

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Nas primeiras cenas, uma menininha nasce e um amigo do pai pondera que ele não terá meios para alimentar mais uma boca. O jeito é ''''sacrificar'''' a recém-nascida. Assim, é sobre o signo da morte que começa este Se o Vento Levanta a Areia, da belga Marion H?nsel. E será assim ao longo desse filme belo e dramático, com a luta da família de Rahne para sobreviver a uma longa travessia no deserto. Em mais de um ponto, esse filme recente lembra o clássico do Cinema Novo Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Menos no fundamental - o tratamento formal (fotográfico e sonoro) faz do filme de Nelson um marco na representação da fome, da seca, da injustiça social. Marion atenua neste ponto. Se a história aponta para uma série de mazelas inexistentes até mesmo no sofrido Nordeste brasileiro retratado por Nelson Pereira, um certo esteticismo visual tende a enfraquecer seu impacto. É o que faz a diferença entre obras-primas e outras, simplesmente boas. As primeiras introduzem soluções originais de linguagem no tratamento de determinados problemas temáticos, que depois serão considerados referenciais. As outras podem ter ótimas intenções e idéias, mas acabam não sedimentando essas propostas no plano da linguagem cinematográfica. Restrições feitas, Se o Vento Levanta a Areia não deixa de ser um bom e mesmo emocionante filme, no qual o que era morte se transforma em vida. Certamente expressando uma esperança da diretora.

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