As veteranas roubaram a cena

Fafá, Alcione, Hebe, Nana, Wanderléa, Zizi e Marília se destacam na homenagem ao Rei no Municipal

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

Se ele chorou ou se sorriu, o importante é que a emoção sobrevive nestes 50 anos de música, alegria e tristeza. Não teve pra mais ninguém quando Roberto Carlos, o Rei em pessoa, surgiu, radiante, perto do fim do show em homenagem a ele anteontem, cantando Emoções. Aos beijos, risadas e afagos no sultão, o harém de 20 vozes femininas, reunidas no palco do Teatro Municipal, fez um grand finale descontraído - em Como É Grande o Meu Amor Por Você, seguido do bis animado com É Preciso Saber Viver. Foi uma bem-vinda quebra de clima de formalidade e uma certa tensão que predominou em boa parte evento. Veja galeria de fotos do showHebe Camargo foi a primeira grande surpresa, abrindo a sessão solene com Você Não Sabe. Dona de um carisma tão grande quanto o do homenageado, arrasou. O outro levante veio com Alcione em Sua Estupidez, que merecia um arranjo com maior peso, uma guitarra talvez, mais compatível com o potencial de seu vozeirão. Em seguida veio Fafá, em Desabafo, totalmente entregue à canção. Um número perfeitamente adequado ao espírito da coisa. Foi a melhor performance de todas: a cantora certa para a canção certa.O oposto de Fafá, uma cantora lírica como Céline Imbert já estaria de antemão deslocada, mas ela fez o que pôde com A Distância. Exacerbada no fim, mais parecia outra Céline, a Dion. Marina Lima, elegante com sua guitarra vermelha, também foi uma que rendeu o (pouco) que poderia em Como Dois e Dois (Caetano Veloso), um blues que cairia melhor em vozes mais potentes como a de Alcione. Intensa como de hábito, Nana Caymmi defendeu Não se Esqueça de Mim, em interpretação idêntica à da registrada em CD, com Cristóvão Bastos ao piano. Foi um dos poucos momentos em que o público teve os ouvidos poupados dos arranjos tão cafonas quanto certos vestidos e os cenários de programa de tevê.Sem surpresa nem decepção também foram Zizi Possi (Proposta), Rosemary (Nossa Canção) e Wanderléa (Você Vai Ser o Meu Escândalo), uma das mais visivelmente felizes. Sandy também cantou direitinho As Canções Que Você Fez pra Mim, mas continua com aquela vozinha enjoada de garotinha mimada. Não cresceu. Mais desenvolvida do que ela, Luiza Possi não foi bem no dueto com a mãe em Canzone per Te. Quem fez realmente algo diferente foi a grande atriz Marília Pêra. Ela dividiu opiniões e exagerou na dramaticidade, mas foi ovacionada por sua interpretação teatral, de tragédia grega, para 120... 150... 200 km por Hora (não 120... 130... 150 como divulgado e impresso no programa).Adriana Calcanhotto foi a única a não cantar acompanhada da banda e fez um número chocho, embora bonitinho, sozinha ao violão em Do Fundo do Meu Coração. Desanimada também foi a atuação de Paula Toller, que desperdiçou uma das canções mais pungentes de Roberto e Erasmo Carlos: As Curvas da Estrada de Santos. A gente pensava em Elis Regina, no próprio Roberto, até mesmo em Simone, que, como Maria Bethânia, fez falta nessas horas. Mas foram bem representadas por suas contemporâneas Fafá de Belém, Alcione, Zizi Possi, Nana Caymmi. Além de Roberto, o brilho maior foi das veteranas, que engoliram as novatas (e as nem tanto).Mart?nália, com aquela voz tão infantilizada quanto a de Sandy, pegou um rojão: a pior música do roteiro, o samba Só Você Não Sabe, e se deu mal. Também parece não ter feito o menor esforço para compensar as deficiências da canção. Faltou empenho também a Fernanda Abreu, que pegou um tema muito mais significativo e pulsante (Todos Estão Surdos), mas o demoliu. E as baianas, hein! De novo fizeram falta as veteranas. A mais indecisa até a última hora, Ivete Sangalo não cantou Não Vou Ficar (livrando assim a memória de Tim Maia), optou por Os Seus Botões e Olha. Deu-se melhor na segunda, embora tenha errado a letra três vezes. Esta definitivamente não é sua praia.Daniela Mercury, que fez um dueto com Wanderléa em Esqueça, parecia mais preocupada com a coreografia de academia de ginástica do que com a música. Como Paula, desperdiçou uma grande canção de Roberto, Se Você Pensa. Desafinada, a sub-Ivete Cláudia Leitte também não convenceu com sua gritaria de trio elétrico em Falando Sério. Também gritalhona, mas menos estridente e mais controlada e precisa, Ana Carolina soube aproveitar muito bem o que Força Estranha (mais uma de Caetano) tinha a oferecer, com bom arranjo e interpretação forte. Como Marília, foi aplaudida no meio, nos momentos mais altos.Como se trata de uma reunião de mulheres, é inevitável falar dos figurinos. As que apostaram no preto básico (Marina, Ana, Wanderléa, Daniela, Marília) não tiveram problemas. Sandy parecia pronta para o baile de debutantes, tão cheia de babados quanto Zizi. Ivete não estava esse pavor todo, ao contrário de Cláudia, mas bem comunzinha de azul bebê. Sinal de que nem sempre poder aquisitivo e elegância andam juntas. Mart?nália quebrou a hegenomia usando calça e paletó, bem masculina. No fim, foi mais divertido do que parecia.

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