As várias camadas de Nélida Piñon

Observadora do processo criativo, escritora lança Aprendiz de Homero, em que revê suas referências

Patrícia Villalba, Rio, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2008 | 00h00

Com sorriso misterioso, Nélida Piñon diz que a criação se sobrepõe a pelo menos sete camadas da civilização. É um conceito que estabeleceu desde criança, quando ouviu a história do arqueólogo Heinrich Schliemann e que acabou por moldar a literatura que ela viria a defender anos depois. Arqueóloga que busca o inefável e caçadora das borboletas que são as palavras, ela revira, apresenta e analisa referências literárias em Aprendiz de Homero (Record, 368 págs., R$ 38), livro de ensaios que acaba de chegar às livrarias e que precede o livro de memórias que ela lança em setembro.Aprendiz de Homero diz claramente que você é uma escritora que se preocupa com o processo de criar. Desde quando passou a se interessar pela figura do escritor tanto quanto pela obra dele?Acho que à medida que eu escrevia e encontrava dificuldades para exprimir o que pretendia, fui me dando conta de que havia uma artimanha, um processo. Havia um acordo entre o meu gosto e a palavra. Porque a palavra tudo faz para não ser captada, ela quer ir embora, é fugaz. E, ao mesmo tempo, a palavra é desafiante. Ela olha para você e diz: ''Como é, você será capaz de me domar?'' Ou seja, acho que a luta do escritor é arrancar da palavra toda a sua multiplicidade, tudo o que existe nela. Há um grande embrião, uma seiva dentro de você, mas você tem de domar essa seiva para contar tudo o que é possível ser contado.E, então, a palavra domada chegaria com mais eficácia ao leitor?Vamos dizer que você chega talvez mais próximo ao centro do verbo. O verbo te supera, mas você se acerca da vizinhança do sagrado. A palavra é isso, o equilíbrio entre o profano e o sagrado. Daí você poder atribuir às frases vários significados, e quanto mais significados você atribui às frases, mais clássicas e mais ricas elas são, porque você permite que o leitor seja livre. O que ocorre é que tenho de me empenhar como autora para suspender o descaso, uma certa indiferença, do leitor. É um processo de sedução.Sim, para fazer alguém atravessar 300 páginas.É, sem desistir. Ele tem de ser fisgado. E ele passa a acreditar naquele universo que está sendo narrado. Que, na verdade, é o universo dele, que ele precisava saber que existe. Não é?Sendo o universo do escritor interessante para atrair, não?Sim. Sabe o que é? Uma arqueologia, com várias camadas. Lembro de que, quando menina, li a história do arqueólogo (Heinrich) Schliemann. Ele acreditou em Homero e começou a procurar Tróia. Encurtando a conversa, começou a escavar. Encontra escombros do que seria Tróia, mas não era ela. Aparece uma segunda cidade. E Tróia seria a sétima cidade a aparecer. Então, o processo de criação leva dentro dele pelo menos sete cidades soterradas, toda a geologia humana. Nós somos o quê? Somos pedras que tremem, e a chuva nos modifica.Homero está na última camada?Certamente Homero nos diria: ''Aqui é a Tróia que eu descrevo, mas a Tróia que eu inventei deve estar mais no fundo.'' E para o criador, meu bem, não há a última cidade. A criação é regime instável. Nenhum escritor é capaz de descrever os pormenores, garantir exatamente como foi construído o processo.Quando saiu em busca da memória, você acabou por se tornar uma escritora que é brasileira, mas não enraizada.É uma visão equivocada acreditar que ser universal é ser menos enraizado. Ao contrário, eu sou cada dia mais enraizada, porque tenho outras visões de mundo. E há uma harmonia entre esses mundos e o nosso mundo. Nós somos atlânticos, não podemos nos fechar. Sempre digo: se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível. Posso dizer que sou brasileirinha no sentido cósmico, mas não quero meu país brasileirinho. Acha que o meu avô Daniel veio para cá no fim do século 19 por que era um país vagabundo? Não. Ele me deu um grande país e a majestade da Língua Portuguesa.Frases"Há um grande embrião, uma seiva dentro de você, mas você tem de domar essa seiva para contar tudo o que é possível ser contado.""A criação é regime instável. Nenhum escritor é capaz de descrever os pormenores, garantir exatamente como foi construído o processo.""Eu tenho de me empenhar como autora para suspender o descaso, uma certa indiferença, do leitor. É um grande processo de sedução.""A palavra tudo faz para não ser captada, ela quer ir embora, é fugaz. E, ao mesmo tempo, a palavra é desafiante. Ela olha para você e diz: "Como é, você será capaz de me domar?""Nós somos atlânticos, não podemos nos fechar. Eu sempre digo: se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível.""Posso dizer que sou brasileirinha no sentido cósmico, amoroso, mas não quero meu país brasileirinho."

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