As ruínas que ajudam a construir a nova história

Em 1989 - O Ano Que Mudou o Mundo, autor conta como caiu a Cortina de Ferro

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Nas últimas férias do verão americano, o jornalista norte-americano Michael Meyer aproveitou a presença dos turistas em Michigan e saiu perguntando como eles se lembravam do fim da Guerra Fria. A maioria respondeu que guardava a lembrança do ex-presidente Ronald Reagan, diante do portão de Brandemburgo, pedindo a Gorbachev, em junho de 1987, para derrubar o Muro de Berlim, que separou as duas Alemanhas por 27 anos (de 1961 a 1989). Considerando a visão histórica dos americanos bastante simplista, o porta-voz do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, concluiu que fez bem ao aceitar há dez anos uma bolsa para escrever o livro 1989 - O Ano Que Mudou o Mundo (Zahar, tradução de Pedro Maia Soares, 248 págs., R$ 38 ), lançado simultaneamente no Brasil e nos EUA. Sobre ele, Michael Meyer falou com o Estado, por telefone, de Nova York, contando os antecedentes desse fato histórico que mudou o mundo.

Meyer adora fazer esse tipo de jogo de pergunta e resposta como o das suas férias em Michigan. Outro "quiz" proposto por ele tem a seguinte pergunta: "Qual dos eventos do dia 4 de junho de 1989 você diria que formatou aquele histórico ano e ajudou a mudar o mundo? As alternativas de Meyer: 1) os protestos da Praça da Paz Celestial na China; 2) a morte do aiatolá e líder iraniano Khomeini; 3)as eleições polonesas. Normalmente, as duas primeiras seriam as mais votadas. Poucos diriam que foram as eleições polonesas. No entanto, foi a vitória do sindicato de oposição Solidariedade, na primeira votação livre nos países do Leste europeu desde 1946, que ajudou a derrubar simbolicamente a primeira pedra do Muro e a desestabilizar os regimes comunistas da Europa.

Meyer, correspondente da revista Newsweek quando o Muro foi derrubado, em 9 de novembro de 1989, argumenta que a imagem icônica de moradores de Berlim Oriental quebrando com marretas a fronteira entre o mundo comunista e o capitalista marcou bem mais que o fim da Guerra Fria. A queda do Muro, diz Meyer, "significou o advento de um mundo novo, multilateral, que exige de todos esforços conjuntos para a solução de problemas que afetam os países do mundo inteiro". A conturbada infância da globalização e do livre comércio, no entanto, foi há 20 anos marcada por um trauma: o que fazer com o esqueleto de regimes autoritários como o do ditador romeno Nicolae Ceausescu? Meyer, que assistiu à execução de Ceausescu e foi o último jornalista a entrevistá-lo, responde: "Aprender a conviver com esses fantasmas, porque ainda existe muita "lestalgia" e ressentimento entre os que moravam do outro lado do Muro."

O uso de um neologismo - lestalgia - para se referir à nostalgia do antigo regime por parte dos comunistas do leste é pertinente. Meyer, a respeito, evoca o filme Adeus, Lênin! (2003), do alemão Wolfgang Becker, que conta a história de uma professora, militante do Partido Comunista. Ao ver o filho ser maltratado pela polícia durante uma manifestação política contra o regime em Berlim Oriental, sofre um enfarte e entra em coma, despertando em 1989 para viver num mundo sem fronteiras. O filho se desdobra para que a mãe não perceba que o comunismo caiu com o Muro. "Hoje isso não seria mais possível, pois é difícil notar sinais de diferença entre a antiga Berlim Oriental e a Ocidental", observa Meyer. Isso não traduz uma visão idealizada do sistema que derrubou essa fronteira: prédios inteiros da Alemanha Oriental viraram ruínas e o mato cresce sem controle sobre seus escombros.

Essa, segundo Meyer, foi uma lição que o mundo ocidental não aprendeu direito. Não basta derrubar regimes totalitários. É preciso erguer algo sobre essas ruínas ou corre-se o risco de cantar vitória prematuramente. "O que eu procuro mostrar no livro é que a queda do Muro não foi fruto de um único gesto grandioso, mas de pequenos gestos de indivíduos como o ministro húngaro Miklós Németh." O reformista político, que depois ocuparia o cargo de diretor do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, continua Meyer, "decidiu confrontar o regime comunista ao concluir que o sistema não funcionava e nunca funcionaria, abrindo a fronteira com a Áustria nas férias de verão".

Provocando a ira de outros líderes comunistas, Németh aproveitou a presença dos turistas da Alemanha Oriental para detonar a Cortina de Ferro, deixando os veranistas passar pela Hungria e organizar um piqueninique pan-europeu em Sorpon (ou Odemburgo), cidade fronteiriça com a Áustria conhecida por sua arquitetura românica e seus bons vinhos.

O buraco entre a Hungria e a Áustria causou um estrago imenso nos outros 140 quilômetros do muro (duas vezes a distância entre Santos e São Paulo). Já estava em curso uma conspiração contra Németh em julho de 1989, quando Ceausescu, o último stalinista, se reuniu com o arquiteto do Muro, o líder Erich Honecker, dirigente da Alemanha Oriental, e o então presidente polonês Wojciech Jaruzelski. Todos queriam a cabeça de Németh, que, por sua vez, desejava uma nova constituição para a Hungria (baseada no modelo americano) e eleições diretas - uma heresia para os conspiradores.

Meyer, a respeito dessa conspiração, lembra de outro filme alemão, A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006), que acompanha o cotidiano de um agente do sistema que espiona um dramaturgo dissidente quando o governo de Berlim Oriental instituiu, em 1984, um sistema de controle e vigilância sobre seus cidadãos. "Há quem pense que o Muro caiu graças a um pequeno grupo de bucaneiros que simplesmente decidiu derrubar o comunismo ou à ação de europeus orientais frustrados pela pobreza e reprimidos pela falta de liberdade, mas poucos consideram a casualidade como componente importante da queda." É pela arrogância americana, que julga ter derrubado o comunismo na Europa, que os EUA pagam até hoje pelos erros no Iraque, argumenta.

"O desastre americano no Oriente Médio nasce dessa ilusão de que foram os EUA que decidiram a vitória contra o comunismo", diz, lembrando que por trás da multidão existiam indivíduos agindo em nome próprio para derrubar não apenas um muro, mas apressar a desintegração do bloco oriental - já, então, em estado adiantado, levando às eleições polonesas que conduziram Lech Walesa ao poder em 22 de dezembro de 1990. Como o sindicalista, cada um desses indivíduos saía da clandestinidade para manifestar seu desagrado à luz do dia, usando a marreta e demolindo o que restava do regime.

Teria, portanto, sido um mal-entendido ou o gesto do porta-voz da República Democrática Alemã, Günter Schabowski, ao autorizar a movimentação de turistas no dia da queda do Muro, escondia um desejo inconsciente de derrubar as fronteiras entre as duas Alemanhas? "Para a história, sua autorização foi fruto de um equívoco, pois Schabowski havia sido orientado a ler um comunicado do governo comunista que autorizava seus cidadãos a viajar ao exterior. Sem poder localizar a data no memorando, Schabowski disse "ab sofort" (de hoje em diante, em alemão, ou seja, imediatamente) ao ser inquirido por um repórter mais esperto." Se Schabowski não tivesse confundido o "imediatamente" com o dia seguinte, quando começariam os procedimentos para a liberação da fronteira, o Muro teria sido aberto para ordeiros e respeitosos cidadãos, mas não teria caído.

"É claro que o colapso político e econômico desses países pesou, mas se esquece que essas pessoas usaram a marreta para dizer uma única coisa: elas queriam liberdade para viajar, para atravessar a fronteira, passar férias em outros países ou, em outras palavras, exigiam que respeitassem seus direitos básicos", diz Meyer, que estava na fronteira checa cobrindo o êxodo quando soube o que estava acontecendo em Berlim. "Peguei o carro no meio da noite e, ao chegar a Berlim, vi o Checkpoint Charlie (posto de controle entre Berlim Ocidental e Oriental) tomado por civis, que espremiam os guardas até que eles desaparecessem na multidão."

Meyer conta emocionado o que viu naquele dia. "Lembro de uma senhora atravessando de robe a fronteira para ver se estava num sonho ou se aquilo era real." Era real. Até o guarda do posto de controle Charlie deu de ombros, conta. Sabia como era difícil ser cidadão da Alemanha Oriental. "Há uma anedota sobre uma banana colocada em cima do Muro, que servia como bússola e revelava o lado oriental", conta. "O leste ficava do lado mordido por conta da escassez de alimentos."

O autor de 1989 - O Ano Que Mudou o Mundo diz que escreveu o livro para leitores comuns, justificando o uso de uma linguagem direta. Considera que essa é a maneira mais correta de passar sua mensagem, que é mais ou menos a de Nietzsche: "O passado é o que aconteceu; a História, o que queremos lembrar." Entre os dois há um perigoso abismo.

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