As pistas sobre um falso enigma

Jonas, O Copromanta, de Patrícia Melo, estabelece em thriller paranóico jogo entre ficção e realidade

Francisco Bosco, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

O livro Jonas, O Copromanta, de Patrícia Melo, é desdobrado do conto Copromancia, de Rubem Fonseca. Antes de tudo, esclareçamos essa relação. Como o título sugere, o narrador de Copromancia considera que as formas das fezes são criptogramas que, uma vez decifrados, permitem adivinhar o futuro. Já Jonas, o narrador de Patrícia Melo, queda estarrecido quando lê o conto de Fonseca, pois ele mesmo, Jonas, possui um ''caderno de excrementos'' e pratica a adivinhação dos próprios dejetos. Jonas considera, então, que o ''escritor'', Rubem Fonseca, teria de algum modo tido acesso à sua vida íntima, ou teria ''o poder de entrar nos seus pensamentos'', ''de roubar suas idéias''. Daí em diante, instaura-se um mecanismo paranóico que é o motor da trama: Jonas passa a perseguir o ''escritor'' para arrancar deste a confirmação de que o havia ''plagiado''. O romance, portanto, tece-se sobre esse jogo entre ficção e realidade: o narrador persegue o autor, cuja obra ficcional é o ponto de partida da ficção que se está a ler.O que se tem então é um thriller paranóico construído como mis-en-abme. O primeiro grande problema é que o mistério a ser solucionado não tem qualquer poder de atração, precisamente por não ser mistério algum: de saída percebe-se que a paranóia do narrador nada mais é do que isso, paranóia, e que, salvo por guinada radicalmente esotérica, a trama está fadada a avançar em falso. Com efeito, constata-se isso à medida que a narrativa prossegue, e assim o que em pouco tempo se revela é uma espécie paradoxal de thriller sem thrill, de falso enigma, de pistas sem crime.Não bastasse esse pseudo-enigma, desprovido da capacidade de insuflar curiosidade, a trama é mal elaborada, feita de prestidigitações lógicas, etimológicas e hermenêuticas. Rubem Fonseca tomara o cuidado, em seu conto, de evitar jogar luz sobre um ponto cego que poderia comprometer sua composição: ele renuncia, deliberadamente, a apresentar ao leitor o que seriam os fundamentos lógicos da copromancia precisamente porque tal coisa não existe, ou melhor, não pode existir, inventá-la atentaria contra as leis da verossimilhança (que nem sempre precisam ser obedecidas, mas no caso de que estamos tratando, sim). Fonseca esquiva-se sem pudores: ''Não vou detalhar aqui os métodos que utilizava, nem os aspectos semânticos e hermenêuticos do processo.'' Patrícia resolve preencher essa lacuna consciente de seu autor inspirador - e o resultado é, previsivelmente, decepcionante. Seu narrador evoca ''as escritas ideográficas do antigo Egito'' e afirma ter encontrado nos hieróglifos a chave de decifração dos criptogramas fecais. Mas aqui o barco faz água: nenhum sistema lógico de decodificação é apresentado ao leitor, senão sob uma forma apressada e imprecisa, configurando a prestidigitação que mencionei antes.Infelizmente, entretanto, não abordei ainda o que me parece ser a principal fraqueza do livro. Tal como a entendo, a estratégia formal de Fonseca tem na seguinte equação um de seus traços mais importantes: geralmente ele lança mão de elementos de códigos eruditos - como o emprego de termos científicos ou investidas etimológicas, ou referências a autores e obras da ''alta cultura'' -, e mistura-os a elementos coloquiais, ambientes ''degradados'', enredos de violência explícita, etc. Numa palavra, uma espécie de high-low formal - que Patrícia reproduz, da mesmíssima maneira, com o saldo negativo de uma forma de segunda mão. Aqui está, por exemplo, o mesmo léxico culto coabitando a frase com palavrões: ''Dessa história nasceu a copromancia, arte divinatória cujo embasamento é puramente racional, construído a partir da mistura estapafúrdia do ergo sum de Descartes com o aforismo de sei lá qual filósofo, que diz que, se somos o que comemos, somos também o que cagamos. Somos m..., é o que diz o autor.''Particularmente, não consigo compreender o que vem a ser o ergo sum, de Descartes, sem o cogito e o dubito, que são os termos fundamentais da frase. E aqui se apresenta um procedimento de Patrícia Melo de valor bastante duvidoso: há uma multiplicação de referências eruditas no texto cujo sentido parece ser antes o de criar uma ambiência intelectual que o de fazer observações relevantes sobre aquilo que se está a evocar. O texto soa impregnado dessa intenção erudita. Em autores efetivamente eruditos - como um Borges, por exemplo, com quem esse livro, ao apresentar um narrador bibliotecário que planeja reescrever clássicos da literatura ocidental, inevitavelmente se mede - a erudição é um recurso, não uma ostentação muitas vezes gratuita.É pena que, com tudo isso, a boa escritora que Patrícia Melo parece ser fique encoberta. Nunca a lera antes e fico com a impressão de que os problemas desse livro são mais da ordem da concepção que da escrita (até onde essa distinção procede). Há diversos momentos inventivos que evidenciam uma escritora de amplos recursos e parecem acontecer nos lugares em que o texto não se deseja tão ''literário'': quando cessam um pouco as alusões livrescas, a intenção literária - aí um homem pode inventar uma mentira mirabolante para tentar tirar uma pessoa idosa de depressão mortal.Infelizmente, não são esses momentos que dão o tom do livro. Tomando a obra do autor que é, notoriamente, o seu modelo literário, e ainda transformando-o em personagem, Patrícia Melo, por meio dessa monumentalização de uma escrita em que ela mesma se espelha, acaba fazendo de seu livro um elogio à própria escrita. Tudo fica com cara de private joke, ou, numa tradução adequada ao contexto, de piada privada.Francisco Bosco, ensaísta, é autor de Banalogias

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