As palavras da ensaísta

Em A Moratória, ao contrário, é o passado que congrega as pessoas, funcionando como a memória coletiva e dando sentido ao presente. Daí a importância enorme - de que talvez nem o autor tenha dado fé - do tempo intemporal em que a peça escoa e a fazenda ora é perdida, ora recuperada, num movimento idêntico ao dos dois pratos numa balança. Constituindo este tempo reversivo, sem antes e sem depois, Jorge Andrade nos deu, magistralmente, o tom trágico da obra, tom de desespero, onde não há propriamente crescimento na ação, pois ela volta sempre ao ponto de partida, enclausurando as quatro personagens principais num círculo de ferro - o tempo intemporal do grupo.Presas ao tempo e ao espaço da fazenda, as pessoas movem-se, reclusas, em linhas simples, sem arabescos. Nem Quim, nem Marcelo ou Lucília traem uma psicologia individual mais complexa. São antes o Pai, a Mãe, o Filho, a Filha; e os atos, pensamentos e desejos que eles derivam, ligam-se menos à história isolada de cada um do que à história da propriedade a que pertencem. É a perda da fazenda que explica a revolta do pai, o fracasso do filho, a crispação subterrânea da filha, a desencantada abnegação da mãe. É a fatalidade do homem-domando privado da ação, que leva Quim a gastar-se nos atos miúdos, espreitando o filho que acorda tarde; é a liberdade dos largos horizontes em que se criou, solto e irresponsável como um animal, que destrói em Marcelo qualquer possibilidade de acomodação à nova existência. Aliás, é admirável a maestria com que Jorge Andrade nos obriga, enquanto o drama caminha, a eximir de culpa a personagem à primeira vista desprovida de sensibilidade moral de Marcelo, para descarregar sobre Quim a responsabilidade da desgraça. Na verdade, um não é mais culpado que o outro; ambos são vítimas, menos de si, que do deslocamento de valores da sua época. E se a própria fazenda lhes escapa das mãos é porque ainda se encontram presos à moral dos contactos individuais e da palavra empenhada, que já não cabe na sociedade em mudança. Assim, pai e filho não se opõem propriamente, antes se completam: são a mesma personagem tomada em dois momentos diversos da história do grupo. E quando em face um do outro ajustam as contas, numa das mais belas e pungentes cenas da peça, a acusação mútua que fazem soa como exame de consciência de uma classe que sente o seu momento ultrapassado.Trecho do ensaio Teatro ao Sul, publicado no livro Exercícios de Leitura,esgotado, que será relançado pela Editora 34/Duas Cidades

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2017 | 00h00

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