As ousadias históricas da Bondinho

Conjunto de mais de trinta entrevistas feitas pela publicação em 1972 expõe a violenta censura da ditadura aos artistas

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

03 de janeiro de 2009 | 00h00

O desabafo de Chico Buarque de Holanda contra a insistência do governo militar em censurar suas músicas. A chateação de Walmor Chagas com a desvalorização do trabalho do ator. A epifania de Gilberto Gil ao ouvir pela primeira vez a batida do violão de João Gilberto. É nesse tom confessional que os artistas conversavam com os repórteres da revista Bondinho, que circulou no início dos anos 1970. Inicialmente um guia de informações sobre a cidade de São Paulo distribuído pela rede de supermercados Pão de Açúcar, a Bondinho tornou-se independente, passou a ser vendida em bancas e em outras cidades, e adotou uma nova proposta editorial. Uma mudança tão importante que a tornou histórica, como comprova Bondinho, volume que reúne 34 entrevistas publicadas ao longo de 1972.Trata-se de um lançamento tão importante como a compilação feita pela editora Desiderata com o Pasquim. Não apenas pela qualidade das entrevistas (os artistas conversavam abertamente com os jornalistas da Bondinho, atitude um tanto perigosa em um País então governado sob uma violenta censura), mas principalmente para desmistificar a posição do Pasquim como única voz alternativa daquele período. Entre os títulos da chamada imprensa underground, a Bondinho se destacava.O termo underground, aliás, usado para definir um estilo alternativo de jornalismo, era também título da coluna de Luís Carlos Maciel no Pasquim. Na conversa com a Bondinho, ele conta como preparava o lançamento da edição nacional da Rolling Stone, cujo plano é semelhante à revista que hoje circula no Brasil, ou seja, a união de matérias traduzidas da versão original com material produzido por aqui.No pesado clima que pairava no País no início de 1970, os artistas tinham energia para fazer planos. Na conversa com os repórteres Hamilton Almeida e Mylton Severiano, Chico Buarque reclama da dificuldade em lançar um disco por ano. De cada três novas canções enviadas para a censura, duas voltavam com um X de veto. E os motivos podiam ser qualquer um.A música Tamandaré, por exemplo, foi considerada um desrespeito porque era uma brincadeira com a nota de um cruzeiro. Já Apesar de Você percorreu uma via-crúcis, como relata Chico, irritado com o medo preventivo de sua gravadora, ou seja, a censura prévia: "Eu mandei a letra direitinho pra censura, eles não gravam sem censurar, foi liberado, carimbado, tudo certinho, foi gravado, censurado uma vez, voltaram a lançar e depois retiraram. Agora, não foi uma coisa legal não, porque nem sei como mandaram retirar, se houve algum papel ou ordem baseada em alguma coisa. Aí fiquei sem saber mais nada."Chico conta que chegou a pensar em mudar de profissão. Ou então parar de gravar. A solução seria fazer shows no Canecão (para os bacanas) e em um circo, o Fu Man Chu, onde o ingresso teria preço popular. O compositor revela ainda a tentativa de se estigmatizar alguns artistas que corria nos bastidores da MPB, buscando colocar uns contra os outros. Ele, por exemplo, seria o menino bonzinho. "Esse ódio é muito mais pessoal do que pelo trabalho propriamente", explica. "Há muito mais raiva do Gil que do Caetano. Odeia-se o Gil - não se gosta do Caetano mas também não se odeia. Você vê na cara de um e entende porquê.""Pela cara?", perguntam os entrevistadores. "Pela cara, pela atitude, pela narina, pela cabeça do Gil; pelo Caetano que é mais branco e mais magro, e franzino, raquítico. Há esse negócio." Segundo ele, foi uma espécie de guerra de bastidores, na qual ele entrou de Cristo apesar de ser amigo de todos.Chico conversou em dois momentos com os repórteres da Bondinho, que estavam acompanhados do fotógrafo Walter Firmo. Primeiro, antes de sair para um show no Canecão. Depois, no dia seguinte, em seu apartamento, onde respondeu deitado na cama. Sob tal clima de intimidade, os jornalistas conseguiam declarações que surpreendiam os próprios entrevistados. Em alguns textos, a afinidade era tamanha que até influenciava o tom das matérias, sem prejudicar, no entanto, sua qualidade.É o caso do belíssimo perfil que Ricardo Vespucci (talentoso repórter que depois usaria o apelido Bi como assinatura de outras matérias) traçou de Lanny Gordin, um virtuose da guitarra que, apesar de muito jovem, acompanhou gente da pesada, de Caetano a Sara Vaughan. Bastam alguns trechos para se confirmar o entrosamento: "Tomou pau no exame da Ordem dos Músicos. Diz que era melhor que o professor. Parou de estudar. Se continuasse ia ser limpador de privada. Aí foi trabalhar na boate. Sumia assim que o Juizado entrava. Já acompanhou muita gente (...) O melhor trabalho foi feito num elepê do Caetano: ele tocou até deitado no chão. Ficou dedilhando a guitarra, criando sons, no máximo volume. A gente percebe que certos arranjos são feitos só para ele: Lanny. O improviso é a maior loucura; berros, Lanny, cabelos voando, Lanny é o diabo!"É de Vespucci também o comando do texto sobre o encontro entre Luiz Gonzaga, Gilberto Gil e o poeta Capinam, intitulado Forró no Sítio de Luiz Gonzaga. Como a conversa contou ainda com outros cantores locais, o repórter teve a audaciosa ideia de escrever a matéria no formato de roteiro de um filme. Assim, à medida que as ações e as falas são reproduzidas como reza a cartilha de um longa-metragem, o leitor tem a nítida impressão de estar diante de uma imaginária tela grande. E, se for mais detalhista, é capaz de ouvir as falas nas vozes de Gil e Gonzagão.Subverter a forma de se escrever uma matéria, aliás, era regra básica nos textos da Bondinho. Assim, se o discurso do entrevistado era bem articulado e fundamentado, por que não publicá-lo no formato de depoimento? Foi o que fez Roberto Benevides após conversar com o ator Walmor Chagas. Preocupado com os rumos do teatro naquele início da década de 1970, especialmente com o gosto cada vez menos apurado do público, e também com a pasteurização forçada pela censura à maioria das peças, Chagas promovia atitudes radicais, que tanto podiam ser a nível pessoal, como retornar a Porto Alegre no seu caso; ou social, como estimular uma discussão mais aprofundada a partir da exibição de sua própria nudez.As contestações exibidas na Bondinho repercutiam, pois suas páginas eram lidas também pelos próprios artistas - daí não ser surpresa um determinado cantor referir-se à fala de um colega, publicado em alguma edição anterior. Foram momentos preciosos, agora felizmente resgatados com esse volume carinhosamente organizado por Miguel Jost e Sérgio Cohn. BondinhoVários autoresAzougue Editorial352 págs., R$ 79,90Frases"O teatro vive de escândalo, mas a censura obrigou o teatro a ser bem comportado e o teatro bem comportado não tem sucesso."WALMOR CHAGAS"Morro de medo de receber santo. Eu acho que o meu é muito forte, sabe? Você saber que uma força absurda está dominando você, que pode mudar tudo, isso me assusta muito."MARIA BETHÂNIA"Nós fomos o povo sobre o qual a bossa nova foi atirada e nós tivemos que sofrê-la. Tivemos que modificar nossos conceitos básicos."TOM ZÉ

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