As memórias do tempo do rei

Em sua segunda incursão pela ficção, Ruy Castro volta ao Rio do século 19 e põe d. Pedro I nas ruas

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2007 | 00h00

Ruy Castro, o biógrafo de Nélson Rodrigues, Garrincha e Carmem Miranda, leu e releu dezenas de vezes Memórias de um Sargento de Milícias. Foi nas páginas do romance de Manuel Antônio de Almeida, escrito em 1852, que Castro se inspirou para escrever sua segunda ficção, Era no Tempo do Rei - Um Romance da Chegada da Corte. O livro, da editora Alfaguara, chega às livrarias esta semana. Nele, d. Pedro I, um menino rebelde de 12 anos, se encontra com Leonardo, personagem saído das páginas de Memórias de um Sargento de Milícias, que Castro define como ''''um menino à rédea solta, livre como o vento, sujo e de nariz escorrendo''''.O romance mistura realidade e ficção na aventura de Pedro e Leonardo pelas ruas do Rio de 1810. Estão lá personagens reais, como d. João VI, Carlota Joaquina, o major Miguel Vidigal, a prostituta Bárbara dos Prazeres e o padre Perereca, cronista oficial da Família Real. E outros fictícios, como Jeremy Blood, mercador inglês que adorava esculhambar o Brasil. Castro brinca com fatos históricos. Coloca d. Pedro I, aos 12 anos, na cama da prostituta Bárbara, coisa que nunca aconteceu. Para mexer com a vida desses personagens reais, Castro leu cerca de 50 livros de história durante um ano. Em nove meses escreveu o romance no segundo andar do seu duplex na praia do Leblon, no Rio. ''''Eu gosto de trabalhar em cima de uma base documentada. Gosto de estudar o período, o cenário onde vai se passar a história para ter uma coisa mais amarrada. O processo de criação é muito parecido com a biografia. A diferença é que eu não preciso entrevistar ninguém'''', diz.Depois de tanta pesquisa, ele não tem dúvidas. ''''D. Pedro, quando jovem, só não está em Memórias de um Sargento de Milícias porque o Maneco de Almeida quis escrever apenas sobre o povo. Sem nobres, nem príncipes.'''' E para lançar d. Pedro nas ruas ao lado do menino Leonardo, Castro teve de tirar o príncipe do Paço. ''''Minha solução foi mais criativa do que a de Mark Twain, em O Príncipe e o Mendigo'''', diz, sem falsa modéstia. D. Pedro sai do Paço porque foge de uma confusão que armou e decide se divertir na rua. O príncipe de Twain troca de roupa com um mendigo por pura brincadeira, mas um guarda flagra os dois e expulsa o príncipe, todo esfarrapado, do palácio. No livro de Castro, d. Pedro cai numa armadilha, mas é salvo por Leonardo, menino que vive nas ruas. ''''E aí a história começa com muito mais fluência e naturalidade do que as soluções encontradas por Mark Twain.''''O Rio de 1810 também é um personagem importante no livro de Castro. ''''A chegada da Família Real foi uma experiência única para a cidade. A colônia virou sede do Império e recebeu todo aquele apetrecho de roupas, louças, biblioteca, gráfica. Foi uma revolução na vida dos cariocas.'''' Castro encontrou na sua extensa biblioteca sobre o Rio descrições preciosas sobre a cidade que dão vida aos becos e ruelas do romance. Mas seu maior achado nas pesquisas históricas foi Bárbara dos Prazeres. ''''Ela é uma personagem fantástica, que existiu realmente.'''' Sua história é mirabolante. Os historiadores contam que ela chegou ao Rio jovem, casada, íntima da Corte, mas teria matado o marido, o amante e terminado os dias como prostituta no Beco dos Telles.'''' No livro de Castro, ela é amante de d. João VI.Castro se preocupou em usar palavras de época ou pelo menos ao jeito português de falar. Recorreu às lembranças familiares, principalmente o convívio com dois tios portugueses. ''''Um era motorista de táxi e outro dono de loja de ferragens. Tinha o eco das palavras portuguesas na minha cabeça.'''' O livro começa com esta dicção muito carregada. À medida que a história avança, ela vai se esvanecendo. ''''Espero ter conseguido colocar na cabeça do leitor essa sintaxe e essa dicção meio antiga.'''' Mais do que isso, Castro espera convencer o leitor que o menino d. Pedro I não viveu todas estas aventuras narradas no livro, mas pelo seu temperamento quando adulto, bem que poderia.

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