As melodias e baquetas de Nenê para o século 21

Em Outono, compositor e baterista esbanja a sua renovação constante

Lucas Nobile, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Quando pequeno, em Porto Alegre, Nenê (Realcino Lima Filho) não pôde aprender a tocar bateria com o próprio instrumento. Como sua família não tinha dinheiro suficiente, ele aprendeu de uma maneira pouco convencional: colocava revistas sobre três cadeiras para batucar e usava o assoalho de madeira de sua casa como bumbo. Hoje, com 40 anos de carreira, e reconhecido por muitos como um dos maiores bateristas brasileiros de todos os tempos, Nenê lança seu 11º disco-solo.

 

Ouça trecho da faixa Lindolfo

Nas dez músicas de Outono, todas compostas por Nenê nos últimos cinco meses, o baterista é acompanhado por Alberto Lucas, no contrabaixo acústico, e Irio Junior, no piano. O tempo extenso das faixas passa longe de ser cansativo. Mesmo no tema mais longo, Lindolfo, com mais de dez minutos, o que se notam são linhas melódicas expressivas e belas, com improvisos que superam o mero exibicionismo da técnica, transmitindo emoção a quem ouve. É o fino do instrumental.

Mesmo com a formação jazzística do trio, Nenê optou por trabalhar de maneira original sons genuínos do País. "É um disco de música brasileira do século 21. Eu tive influências de bateristas, como Milton Banana e Edison Machado, e compositores como Tom Jobim e Villa-Lobos, mas tento fazer como o Mário de Andrade, assimilar tudo e fazer algo diferente do que foi e está sendo feito pelos outros", diz Nenê.

Essa busca infinita pela renovação, ele aprendeu com seu "professor" Hermeto Pascoal, com quem tocou por mais de dez anos. Foi o compositor e multi-instrumentista alagoano que apresentou Nenê a um novo universo, com uma infinidade de ritmos brasileiros do Nordeste. Dedicado, o baterista anotava as novidades aprendidas com Hermeto em um caderno para não esquecer. Anos depois, já trazia na bagagem gravações e participações em discos e shows com o próprio Hermeto, como no antológico Ao Vivo em Montreaux (1979), com Egberto Gismonti, em Sanfona (1981), Milton Nascimento, em Clube da Esquina 2 (1978), e Elis Regina, em Falso Brilhante (1976).

Nenê toca com o seu trio no Jazz nos Fundos, em São Paulo, no próximo dia 20. Atualmente, ele vive um período criativo extremamente fértil. Mesmo com Outono recém-lançado, Nenê já tem seis novas composições, que devem ser lançadas em 2010. "Sempre tenho músicas guardadas. É bom, pois tenho tempo para lapidar cada uma e, quando me ligam para gravar, é só ligar a máquina", diz Nenê.

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