Às margens de Cildo Meirelles

Artista fala de sua primeira individual na famosa Tate Modern, à beira do Tâmisa

Flávia Guerra, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

13 de outubro de 2008 | 00h00

Ainda que carregue a fina estampa de ser um dos mais respeitados e centrais artistas da arte conceitual, o carioca Cildo Meirelles nunca deixou de estar à margem. Pelo menos não quando o assunto é a sua forma periférica, porém aguda, de observar, e retratar o universo que o cerca. E é este olhar, de quem se senta "na terceira margem do rio", que Cildo lança agora às margens do Tâmisa. O artista abre hoje na Tate Modern sua primeira grande exposição individual no Reino Unido. Mas que olhar é este? Que olhar inspira o público de Cildo a questionar a noção de tempo, espaço ao se deparar com obras como Inserções em Circuitos Ideológicos (a famosa garrafa de Coca-Cola com frases como Yankees Go Home), Desvio em Vermelho e Babel? O olhar de quem está sempre no olho do furacão, mas nunca deixa de ler nas entrelinhas. Desde a infância, quando aprendeu a assistir a filmes na última fileira do cinema para poder ver dois espetáculos (o do público e o da tela), a chamada terceira margem sempre o seduziu. As mesmas dimensões que o intrigavam também serviram de mote para obras que trazem o olhar que sempre lançou sobre o Brasil e o mundo. "Estar nessa posição privilegiada me faz lembrar da sensação de quando o homem foi à Lua. Ainda hoje lembro do que senti", rememora. "Era criança e, em vez de me encantar com os astronautas que pisaram na Lua, fiquei pensando no que estava sozinho, o que ficou na nave observando tudo." E foi às margens do Rio Tâmisa que Cildo falou ao Estado sobre os caminhos que o levaram a aportar na Tate Modern, onde, na sexta, fazia os últimos ajustes da exposição que o conduz definitivamente ao curso principal da arte contemporânea internacional. Foram muitas braçadas para chegar a um dos mais prestigiados templos da arte moderna mundial. Antes, passou por Nova York, onde expôs pela primeira vez no exterior, em 1970, Alemanha, Espanha, Itália... Discutir a noção de arte, espaço e tempo em uma cidade que é o centro nervoso de um mundo em crise econômica e de identidade é privilégio para poucos. Cildo sempre foi um artista de projeção internacional, um dos mestres da arte conceitual, observando o mundo não sob a ótica de uma arte política panfletária, mas dando uma resposta artística que se alimenta da realidade em que é produzida e que devolve a esta realidade uma resposta orgânica e viva. Por isso, expor na Tate representa o privilégio de estar sob o olhar de um público global, que traz ao artista a oportunidade de poder analisar sua própria obra de nova perspectiva. "Sempre tive sorte e estive ?do outro lado do porto?. Gosto muito de estar nessa situação", comentou. "Mas, ao mesmo tempo, ironicamente, a maioria dos artistas está só." Ironia mesmo é constatar o quanto Zero Dollar, obra polêmica, criada no fim dos anos 70, segue atual. Em plena crise financeira mundial, o valor impresso nas linhas, e entrelinhas, das notas monetárias nunca foi tão questionado. "Fui ao Bank District (distrito financeiro londrino), para filmar com o Gerald Fox (que rodou um filme sobre o artista para ser exibido na hoje, e em uma versão integral em 09 de novembro às margens do Tâmisa), e senti que o clima está pesado", comentou Cildo, que também é tema de um documentário, dirigido pelo brasileiro Gustavo Moura. Diretor e equipe seguem o artista mineiro há dois anos. E aportam também na Chelsea College of Art & Design, onde Cildo também expõe Ocasião, que já mostrou na Alemanha, a partir do dia 21. No dia 25, é a vez de exibir a última versão da escultura Malhas da Liberdade na própria Tate.Feliz? "Claro. Essa projeção no exterior é gratificante." Na multiétnica Londres, não poderia faltar Babel. Inspirada no fascínio que sempre teve pelas luzinhas do rádio no escuro, Babel entoa as vozes do mundo. "Estou aqui há quase um mês e tenho observado quanto esta cidade é global", comenta o artista.Com curadoria de Guy Brett, um dos mais importantes do cenário britânico de arte contemporânea, e Vicente Todoli, parceiro antigo de Cildo e hoje diretor da Tate, a mostra é uma antologia carinhosa, mas não cronológica de sua carreira. "De novíssimo, há a versão do Fontes, cuja primeira é de 1982. Algumas obras, como Ku Kka Ka Kka (polêmica por utilizar fezes humanas e flores) não puderam vir. A manutenção é complicada. Outras, como Através, sofreram restrições por motivo de segurança. No mais, o valor geral das obras foi mantido. Estou feliz com as escolhas do Brett e do Vicente."Esta é também a primeira vez que obras serão expostas na Tate sem divisória. "Foi idéia do Vicente, já que a mostra discute a idéia de espaço e tempo. Até os funcionários comentaram que nunca tinham visto uma mostra sem divisões. Derrubamos literalmente as paredes." O público poderá conferir a partir de amanhã, e até 11 de janeiro, quando a mostra se encerra na Tate para ser reaberta no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, em fevereiro, e viajar, na seqüência, para Houston, Los Angeles, Canadá. Algum plano de aportar no Brasil? "Não é impossível. Só que os outros países não vão ter o ?brinde? daqui. Brinco que você vem ver o Cildo e ganha um Rothko (o artista russo que está em cartaz na Tate) e o Duchamp (Marcel, que tem obras no acervo da Tate) de brinde."

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