As marcas do cinema oriental na obra de Carlos Reichenbach

Diretor paulistano formou-se na cultura nipônica assistindo a longas sem legendas em salas na Liberdade, nos anos 1960

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

O cineasta Carlos Reichenbach deve acreditar piamente na expressão: "Uma imagem vale mais que mil palavras." Afinal, nos anos 1960, acompanhado de amigos como o crítico Jairo Ferreira e o poeta e dramaturgo Orlando Parolini, Carlão (como é conhecido) assistia a filmes japoneses sem legendas, nos cinemas do bairro da Liberdade (como o Niterói, Jóia e Tokyio). Eram salas dirigidas para a comunidade nipônica, mas que acabaram incluindo o bairro na cena cultural paulistana."Aprendi a me abster das legendas nessas sessões, inesquecíveis também porque gatos enormes se esfregavam nas pernas dos espectadores durante a projeção", conta o cineasta, que chegou a acompanhar até três estreias por semana, fato ainda raro na atualidade. Além das salas, Carlão assistia também a algumas sessões promovidas pela Aliança Brasil-Japão, próxima da Rua São Joaquim, no centro paulistano. Foi lá que o futuro cineasta viu pela primeira vez Intendente Sansho, de Kenji Mizogushi. "Foi esse filme, com Guerra e Humanidade, de Masaki Kobayashi, e Morte à Fera, de Eizo Sugawa, que tiveram vital importância na minha decisão de estudar cinema."Os filmes também eram exibidos sem legenda, mas o entendimento era facilitado pelo crítico José Fioroni Rodrigues. Segundo Carlão, ele preparava um folheto explicativo, algo semelhante ao que acompanha os espetáculos de óperas, que apresentava um breve resumo do enredo. "Trazia também dados históricos e detalhes da cultura japonesa."Carlão, como os amigos, saía atordoado das sessões. E não por causa dos gatos - os filmes japoneses exerciam um especial fascínio graças a seu inconformismo radical. Deixaram também marcas profundas, a ponto de influenciar sua obra. "Filmes que dirigi depois, como Alma Corsária e Dois Córregos, têm resquícios da cultura japonesa como a presença do mar como elemento que une ou separa as pessoas, e também a forma de encarar a morte", explica. "Sofri uma influência muito forte, especialmente do cinema de Mizogushi, que trazia uma rara escritura poética."Também os cineastas japoneses que despontaram nos anos 1960, uma geração mais anárquica, como Yoshida e Imamura, empolgaram os frequentadores da Liberdade. "Como éramos niilistas, gostávamos da troca da subversão pela transgressão, proposta por esses diretores."

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