As mãos do rude trabalho são as mesmas a criar a arte pura

Melodias sofisticadas e letras líricas resultam da resignação - criadora - diante da passagem do tempo, que vale ouro

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2008 | 00h00

Certa feita, na zona sul carioca, apontaram uma garrafa de cerveja para Argemiro Patrocínio e pediram-lhe para fazer um samba. "Não posso, eu não sinto nada por ela", respondeu o portelense, morto em 2003.Paulinho da Viola diz que o samba da Velha Guarda da Portela não tem explicação. Está certo. Mas pode-se dizer que o mistério das canções da Velha Guarda se esconde na simplicidade de uma arte amadora. Aqueles sambistas de Oswaldo Cruz, na zona norte, são amadores no bom sentido da palavra.As suas mãos - de pintor, pedreiro, feirante, etc. - que tecem o rude trabalho são as mesmas de uma arte pura e límpida. Com seu conjunto de costumes, esses sambistas são um contraste ao mundo atual, ao preservarem valores fundamentais. Respeito ao passado; senso de coletividade; e humildade diante da perda - do amor e da vida. O tempo passa para se transfigurar em ouro.Esses valores, difundidos por Paulo da Portela, um dos fundadores da escola, em 1923, se traduzem na melodia sofisticada e nas letras líricas. Organizador dos festejos de carnaval, Paulo da Portela, o professor, era educado e polido. Não por acaso, o elegante Paulinho da Viola é considerado o seu sucessor. Não é à toa também que a primeira parte de um samba, feita por um dos integrantes, é completada por outro: eles se identificam com a idéia nascida no sentimento do companheiro.Como está no livro A Velha Guarda da Portela, de João Baptista M. Vargens e Carlos Monte, há uma unanimidade em torno da rítmica singular da Portela. Nas letras, que preservam lembranças rurais (a escola deve seu nome ao português Miguel Gonçalves Portela), percebe-se a reverência à natureza, vista como exemplo de perfeição. (O arranjo de Nascer e Florescer, de Manacéa, no CD Tudo Azul, traz o canto de passarinhos).Os ciclos da natureza - o nascer, o morrer, o renascer - ensinam a aceitar o fluxo incessante das coisas. A dor dessa consciência resulta na arte da sabedoria. Meu Mundo É Assim, de Alvaiade, diz: "O dia se renova todo dia/ Eu envelheço cada dia e cada mês/ O mundo passa por mim todos os dias/ Enquanto eu passo pelo mundo uma vez." Insinua resignação e esperança. Pois é mais ou menos esse o mistério da Velha Guarda da Portela, é o lirismo da resignação criadora, ainda que pareça paradoxal.

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