As infâncias de Manoel de Barros em livro e CD

Poeta mato-grossense que completou 92 anos finaliza sua ?autobiografia? e inspira grupo Ponto de Partida

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2008 | 00h00

Logo nas primeiras páginas da série, ele já avisa: "Tudo o que eu não invento é falso." A trilogia da infância infinda do poeta Manoel de Barros, que na última sexta-feira completou 92 anos, é uma fuga necessária a um "escritório de ser inútil", onde é perfeitamente possível aprender a usar a "fivela de prender silêncio" e identificar o momento ideal para gastar o "abridor de amanhecer".A coleção Memórias Inventadas acaba de ser completada com a terceira e última parte da série toda dividida "infâncias". Isso porque Manoel de Barros afirma não ter vivido outra fase na vida que não essa. A pedido da editora Planeta, o mato-grossense delineou memórias absortas, capturadas de relance e transcritas em forma de poesia para uma série de três livros que servem como autobiografia (ou "desbiografia oficial", como foi subintitulado o recém-lançado documentário a seu respeito, Só Dez Por Cento É Mentira, de Pedro Cezar). Quer dizer, memórias absortas, mas também inventadas, porque verdadeiras.Ilustradas pela artista plástica Martha Barros, filha de Manoel, a Primeira (2003), Segunda (2006) e Terceira Infância (maio de 2008) - que representariam a tenra idade, mocidade e velhice do poeta - é um mergulho em sua palavra Bem-de-raiz, fonte que deseja emprestar a todos os leitores dispostos a "beber na fonte do ser".Dentro desse séquito está o grupo mineiro Ponto de Partida, em cujo mais recente espetáculo criado, Pra Nhá Terra, floresce a poesia teatral de Manoel. Ao lado dos Meninos de Araçuaí, cidade incrustada no Vale do Jequitinhonha, os atores encenam a história da mãe natureza, que corre sério risco de sobrevivência. Ajudada por guardiães das sementes, águas, bichos e ventos, Nhá Terra vai sendo reconstruída, sem didatismo ou moralismo. As canções cheias de poesias, inspiradas pela simplicidade profunda de Manoel de Barros, impressas em versos como "eu penso em renovar o homem usando borboletas", renderam um CD como há muito não se ouvia. Imperdível - e disponível por apenas R$ 20 pelo tel. (32) 3331-5803 e pela loja virtual do site www.grupopontodepartida.com.br.

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