As ilusões renovadas de um eterno recomeço

Com As Duas Vidas de Mattia Pascal, o diretor Mario Monicelli faz uma leitura pessoal do romance do autor italiano

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

10 de agosto de 2008 | 00h00

Em princípio, não haveria melhor diretor para adaptar Pirandello do que Mario Monicelli. Satíricos, ambos, mas com um travo de melancolia na maneira como se riem da vida. Para falar a verdade, o mal-estar é maior em Pirandello que em Monicelli, o que talvez explique certo descompasso deste filme que, se não deixa de ser bom, não se equipara aos melhores de Monicelli. E tampouco extrai do romance de Pirandello todas as potencialidades nele contidas. A história é bem conhecida. Em As Duas Vidas de Mattia Pascal (Versátil, R$ 37,50), o personagem (vivido por Marcello Mastroianni) é dado como morto e nada faz para desfazer o engano. Pelo contrário. Aproveita-se dessa morte equivocada e parte para outro modo de vida. No caso, ele busca o charme dos cassinos de Montecarlo, onde se revela jogador compulsivo. Claro, o enredo é rico de implicações psicológicas. Joga com a fantasia recorrente de recomeçar do zero, ter uma vida novinha em folha, sem os determinantes de uma existência já rotineiramente cumprida. Todos têm uma família, profissão, emprego, filhos, um grupo de amigos, uma casa, talvez um cão. Tudo isso pode ser um lastro; pode também ser um peso. Para começar do zero é preciso morrer. Simbolicamente, porque apenas um suposto desaparecimento físico daria ao sujeito a possibilidade de se comportar como se tivesse nascido de novo. É o que o engano de identificação de um cadáver proporciona ao nosso Mattia Pascal. Essa fantasia é ela própria um engano, porque ninguém recomeça do zero a não ser que se despoje de si mesmo, mas isso Mattia ainda não pode perceber logo que readquire sua bem-vinda liberdade pessoal. Por falar nisso, há outro escritor, do lado oposto do Atlântico, que pensou a mesma coisa em outros termos - Dashiell Hammett. Em uma passagem das mais interessantes de O Falcão Maltês, o detetive Sam Spade conta a estranha história de um homem que andava pela rua quando um andaime caiu ao seu lado e quase o atingiu. A proximidade da morte faz com que tome consciência do absurdo da vida que levava. Larga tudo. Emprego, mulher, casa, a roupa do corpo. E vai refazer a existência em outra parte do país, bem longe dali. Alguém o encontra anos depois e fica surpreso. Como havia se comportado o nosso homem, que queria reinventar a sua existência? Da maneira a mais rotineira possível. Havia arranjado um emprego na mesma profissão anterior. Sua nova casa era réplica da antiga. Havia se casado de novo...e com uma mulher muito parecida com aquela que havia deixado para trás. Fugindo de si, havia sucumbido à determinação da sua personalidade e, segundo seu plano geral, reconstruíra à perfeição a prisão da qual escapara. Assim também é o nosso Mattia Pascal e o risível da sua recém-conquistada liberdade não escapa ao olho clínico de Monicelli, alguém acostumado a filmar tragédias como se fossem comédias. Pontuado por uma trilha interessante de Nicola Piovani, o filme funciona como se fosse às vezes um suspense, outras, como se se tratasse de uma farsa. Mastroianni também se presta muito bem a essa duplicidade de interpretações. Grande ator dramático, era também dono de veia cômica, adotando, quando necessário, o tom bufo de quem vê neste mundo antes de tudo uma divertida comédia que deve ser aproveitada enquanto é tempo. Não por acaso, era o ator-fetiche de Fellini, diretor que amava misturar os registros em suas obras. Fellini saltava de uma seqüência dramática para a comédia rasgada e desta para a ironia sem qualquer pudor ou preparação prévia. Mastroianni o acompanhava, muito à vontade, nesse malabarismo de sentimentos. É esse também o Mastroianni que dá vida ao Mattia Pascal de Monicelli. Nesse filme que tem muitas qualidades, exacerba-se talvez a veia cômica, deixando-se um pouco ao lado, ou ao fundo, seu aspecto mais metafísico, filosófico, meditativo do original - tudo o que está em Pirandello, afinal de contas. É uma opção do diretor, quem sabe da produção. Mesmo porque Mattia Pascal foi pensado no formato de minissérie o que, na versão para cinema, redunda em filme longo demais - nada menos que 178 minutos. Mas, enfim, com as restrições que se possam fazer, sempre é um prazer acompanhar esse pobre Mattia Pascal em sua ilusão de começar uma vida zero quilômetro, sem qualquer débito para com o passado. De certa forma, podemos pensar o personagem como um ser único, um pateta individual, ou como alegoria mais geral num tempo em que alguns países se mostram dispostos a viver no eterno presente, liberados por fim do fardo da História.

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