As feridas da guerra, por Ophüls

As quatro horas e meia de A Dor e a Piedade dissecam o colaboracionismo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2008 | 00h00

Seu pai, Max Ophüls, entrou para a história como o cineasta da valsa. Nenhum outro diretor mexeu tanto a câmera, utilizando-a para criar um bailado com (e em torno) de seus personagens. Marcel Ophüls seguiu outro caminho. Seu longa de estréia, o episódio que realizou para O Amor aos 20 Anos, em 1961, era bastante medíocre e mesmo que o policial Peau de Banane, três anos mais tarde, fosse um pouco melhor, ele deve ter-se dado conta de que não iria muito longe como ficcionista. No começo dos anos 70, Marcel Ophüls descobriu sua via - a do documentário, especializando-se em temas espinhosos.O espectador que for ver hoje A Dor e a Piedade (Le Chagrin et la Pitié) talvez tenha alguma informação sobre o filme, pois há 38 anos ele suscitou as mais vivas reações na França. Marcel Ophüls foi o primeiro cineasta a denunciar o colaboracionismo francês na 2ª Grande Guerra. O filme não faz outra coisa senão a crônica de uma cidade, Clermond-Ferrand, onde hoje se realiza um importante festival de curtas, para lembrar o período conhecido como ''República de Vichy''. Através de atualidades filmadas e de depoimentos, Ophüls remexe velhas feridas e mostra a falta de heroísmo de uma parcela muito grande de franceses, que se aliou aos ocupantes alemães. Em 1973, Louis Malle retomou o assunto, como ficção, em outro grande filme - Lacombe Lucien.Com quatro horas e meia de duração, A Dor e a Piedade é uma implacável exposição do que levou a população de Clermond-Ferrand a colaborar. Uns o fizeram por afinidade ideológica, outros por interesses pecuniários. E houve os que resistiram, mas eles foram muito menos. Revisto hoje, o que mais deve impressionar o público é a intensa dramaticidade do relato, que Marcel Ophüls, segundo Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema, construiu na sala de montagem. Em 1997, Marcel Ophüls veio ao Brasil para presidir o júri do 2º É Tudo Verdade. Na seqüência de Le Chagrin et la Pitié, havia feito Hotel Terminus, investigando o caso de Klaus Barbie, conhecido como o carniceiro de Lyon, por sua selvageria como chefe da Gestapo na cidade francesa. Também lá a linguagem era importante e Ophüls, mais do que um filme sobre o Holocausto, fez uma história de detetive.Serviço A Dor e a Piedade (238 min.) - Dir. Marcel Ophüls. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. Hoje, 17 h

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