As esquinas perigosas da aristocracia inglesa

Em A Duquesa, o diretor Saul Dibb filma 'teatro' do poder

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2008 | 00h00

Triângulos e quadriláteros amorosos fazem parte da tradição inglesa. Lady Di, o príncipe Charles e Camilla Bowles, a lendária Edwina Mountbatten, mulher do vice-rei da Índia, e Nehru, e - claro - Georgiana, duquesa de Devonshinre, seu poderoso marido, a amante dele e o amante dela, o futuro primeiro-ministro Charles Grey. O último quadrilátero está no centro de A Duquesa. Você não precisa ser fã de narrativas romanescas para apreciar o belo filme de Saul Dibb. A maneira mais fácil é buscar na vida de Giorgiana Spencer um paralelismo na de sua descendente Lady Di. Você pode até fazê-lo, por meio da história da mulher que é amada por todo um reino, menos pelo marido - no caso de Lady Di, não era só ele, havia também a Rainha, é verdade. Mas ver em Giorgiana só a pré-Diana é empobrecedor.A Duquesa tem seu lado Jane Austen, en passant, contando a história de uma mulher presa a um casamento de conveniência - seu compromisso é dar um filho varão ao marido, garantindo a continuidade da linhagem. Enquanto Giorgiana não cumpre sua parte, o casamento rui, mas o diretor Dibb não filma cenas de um casamento, no estilo de Bergman. Ele faz o que Martin Scorsese queria ter feito em A Era da Inocência, adaptado de Edith Wharton - as esquinas perigosas da aristocracia. Mulheres apanham dos maridos, eles têm direto de estuprá-las, todo poder ao macho. Neste universo, Giorgiana ensina que as mulheres se expressam pelas roupas, pelas plumas e pelos penteados. Ela influencia a política como os costumes. Do marido autoritário, não acostumado a ceder, arranca um acordo, que ele propõe. Saul Dibb cria um teatro do aristocracia e do poder. Os nobres lavam sua roupa suja face à criadagem, e é como se ela não existisse. Um teatro por vezes do absurdo. Ralph Fiennes, como o duque, transforma o silêncio em tensão. Keira Knightley, a duquesa, sobrevive à crítica que lhe fez Hugh Hudson. Homenageado da Mostra, o diretor inglês disse, num debate, que o maior mérito de um ator é saber se imobilizar, quando necessário. Keira, segundo ele, mexe-se demais. Hudson precisa rever seu conceito. Ela está cada vez melhor, além de mais bela. Como heroína romântica, não tem igual na atualidade, mesmo que o conto não tenha nada de meloso e, pelo contrário, seja duro como as relações sociais que expõe.

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