As diversas batucadas feitas na terra da garoa

Projeto Memória do Samba Paulista lança primeira leva de 12 CDs que registram as obras de Toniquinho Batuqueiro, das velhas guardas e de outros compositores

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

Nos anos 1940, quando Carlos Alberto Caetano e outros moradores da zona norte queriam sambar, tinham de atravessar o Centro para participar dos desfiles de escolas como Lavapés e Campos Elísios. Insatisfeito com a diretoria da Lavapés, Carlos fundou a Unidos do Peruche, em 1955. Nas décadas seguintes, ele se tornaria o Carlão do Peruche, um dos sambistas mais importantes de São Paulo.

 

Ouça trecho de Tristeza

De outra insatisfação nasceu, em 2002, o Kolombolo, entidade sem fins lucrativos que se propõe a divulgar a batucada paulista. Em parceria com a ONG Sambatá, que explora a ascendência africana na cultura nacional, Kolombolo criou o Memória do Samba Paulista, série de 12 CDs, distribuídos pela Tratore, com as composições de sambistas paulistas e das velhas guardas. A direção artística é de Guga Stroeter. A produção, de Renato Dias e T. Kaçula.

Segundo Renato, compositor e um dos fundadores da Kolombolo, as características do samba paulista são percebidas na interpretação e na linha melódica das obras gravadas. A instrumentação dos CDs adota o padrão carioca, difundido pelo Brasil. A formação mais comum é de violões 6 e 7 cordas, cavaco, tantã, cuíca, pandeiro e surdo, apesar do emprego, aqui e ali, da viola, do trompete, do pífano ou do violoncelo.

"O samba de São Paulo é mais carregado, triste, e menos festivo", diz Renato. "É duro, com o pé arrastado no chão, herança indígena, do jeito de dançar dos tupis." E relembra o amálgama entre as matrizes africana, europeia e indígena que resultou na batucada da terra da garoa. Para ele, o projeto abala "a dificuldade de São Paulo assumir a sua cultura, em vez de ser apenas um consumidor das produções culturais de outros Estados". "Queremos fazer divulgação, não estamos a fim de discutir qual samba no Brasil é o melhor", ele alerta.

Já foram lançados quatro dos 12 discos. Um deles é o da Velha Guarda do Peruche, com 13 sambas e uma faixa que traz declarações de Carlão do Peruche e Décio Ferreira. Os intérpretes, entre eles Carlão e Denise Camargo, se revezam em composições antigas e criadas para o projeto, como Repicar dos Tamborins (Carlão), Filial de Samba (Geraldo Filme/Narciso Lobo) e Caqui, Celeiro de Bambas (T. Kaçula/Renato Dias).

Toniquinho Batuqueiro é o primeiro disco-solo, com 14 faixas, deste compositor nascido em Piracicaba, em 1929. Ele havia gravado algumas obras, junto com Geraldo Filme e Zeca da Casa Verde, em Plínio Marcos em Prosa e Samba - Nas Quebradas do Mundaréu (1974), disco fora de catálogo. A presença da viola no CD de Toniquinho realça as origens rurais da batucada paulista. "E na voz ele carrega a tradição dos cururuzeiros e tambozeiros, foi com eles que aprendeu a gingar e a versar", diz Renato. Toniquinho, cego há 10 anos, gravou composições novas, como Kolombolo, parceria com Renato e T. Kaçula, e Bolo de Fubá, da mesma dupla, além de antigas, como Ditado Antigo, Tristeza, Saco Vazio (com Zeca), e sambas-enredo para as escolas Rosas de Ouro, Peruche e Unidos da Vila Maria.

Toniquinho é um dos integrantes da Embaixada do Samba Paulistano, fundada em 1995 para preservar o carnaval da cidade. A Embaixada assumiu a indicação dos cidadão e cidadã do samba de São Paulo. É formada por mais de 20 integrantes das velhas guardas. O repertório do CD da Embaixada, entre outros, registra Biografia do Samba (Talismã/Tabu), Meu Sabiá (Mestre Feijoada) e Lá Vem Ela (Fernando Penteado).

Completa a primeira leva o grupo Tias Baianas Paulistas, idealizado por Valter Cardoso, em 1994, com integrantes da Nenê de Vila Matilde, Camisa Verde e Branco e Vai-Vai, para valorizar o papel das baianas nas agremiações. No CD, comparecem Grupo da Barra Funda (Dionísio Barbosa/Luiz Barbosa), O Nosso Coração É Claridade (Tabajara Rosa), entre outros.

Em 2010 serão lançados os oito CDs restantes: Velha Guarda da Nenê de Vila Matilde; Ideval Anselmo e Zelão; Velha Guarda da Rosas de Ouro; Tio Mário; Velha Guarda do Vai-Vai; Denise Camargo; João Borba e Velha Guarda da Unidos de Vila Maria. Segundo Renato, "o resumo do projeto é uma frase de Plínio Marcos: "Um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre"".

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