Galeria Berenice Arvani
Galeria Berenice Arvani

As cores raras do concretista Rubem Ludolf em retrospectiva

Galeria Berenice Arvani abre hoje exposição do pintor alagoano, morto em 2010, que teve sua obra comentada por Mário Pedrosa

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 Março 2017 | 04h00

Um dos pioneiros da abstração geométrica no Brasil, integrante do histórico Grupo Frente nos anos 1950, o alagoano Rubem Ludolf (1932-2010) teve sua obra destacada entre os artistas concretos por críticos como Mário Pedrosa (1900-1981), que sublinhou a “delicadeza tonal” do pintor e sua inteligência visual, responsável pela criação de tramas que, superpostas, formavam um terceiro plano. É esse expoente do movimento concreto que a Galeria Berenice Arvani homenageia hoje, 21, com a abertura da exposição Rubem Ludolf e o Plano da Cor.

A mostra, com curadoria do crítico Celso Fioravante, reúne obras tanto abstratas como figurativas, pinturas do começo de carreira em que Rubem Ludolf retrata naturezas-mortas e paisagens dos morros cariocas – ele se fixou no Rio e começou a ter aulas com Ivan Serpa em 1955. Esses primeiros trabalhos já revelam a vocação colorista de Ludolf, mas são as grandes pinturas dos últimos anos que dominam essa pequena e reveladora mostra do pintor.

No primeiro caso estão as estruturas seriadas da década de 1950 (retomadas três anos antes da morte do pintor) em que os efeitos óticos (ele se deixou impressionar pela op art) sinalizam a mudança de rota de Ludolf. Na década seguinte (1960), ele passou a se interessar mais por tramas de cor do que pela estrutura construída pela linha – ou seja, pelo rigor concretista. A despeito dessa escolha pela liberdade cromática, Ludolf conservou sua ligação com a construção arquitetônica quando optou pela pintura (ele trabalhou por 46 anos para o antigo DNER, hoje Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes).

Ludolf se uniu ao primeiro conjunto de artistas concretos, o Grupo Frente, marco histórico do construtivismo brasileiro, na segunda exposição, em 1955, montada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Sobre os artistas participantes da mostra (Ludolf, Hélio Oiticica, Franz Weissmann, entre outros), Mário Pedrosa observou que eles não formavam uma “panelinha” ou uma “academia” onde se ensinavam regras para a arte abstrata. A liberdade de criação, segundo o crítico, era a meta desses artistas.

Embora criadores libertários como Oiticica tenham posteriormente se alinhado ao grupo dos neoconcretos, Ludolf preferiu seguir sua solitária trajetória, ainda que mais próximo dos ideais dos concretos paulistas, entre 1956 e 1957. Algumas telas suas desse período, que lidam com vibrações cromáticas muito próximas dos pintores de São Paulo (Luiz Sacilotto, em particular), provam que não havia, evidentemente, tantas diferenças assim entre os núcleos concretistas carioca e paulista.

Após a dissolução do Grupo Frente, Ludolf ficou no “limbo” do concretismo. Não era um neoconcreto oficialmente (ele não assinou o manifesto de 1959) nem um concreto do grupo Ruptura. No entanto, numa entrevista ao curador Celso Fioravante publicada no catálogo da exposição, o pintor reconhece que era “mais próximo do concretismo”. Em seu meio século de carreira, ele pensou em parar de pintar algumas vezes. Passou nove anos sem expor, entre 1989 e 1998, quando fez uma individual na galeria Paulo Klabin e ocupou uma sala no Paço Imperial. Foi justamente por essa época que os colecionadores estrangeiros (como o norte-americano Gilbert Silverman) começaram a se interessar por sua obra, presente em importantes coleções brasileiras (Gilberto Chateaubriand) e museus (MAM do Rio e São Paulo).

Ludolf participou de várias bienais de São Paulo (a primeira vez na terceira edição, em 1955), sendo premiado em 1967. Morreu em julho de 2010, em consequência de um aneurisma, um mês depois da abertura de sua exposição na Galeria Raquel Arnaud, na qual esteve presente.

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