As contradições do País, por quem consegue rir delas

Jorge Furtado assina Saneamento Básico - O Filme, sobre a cidade que não tem dinheiro para construir uma fossa

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Muita gente - amigos, distribuidores, exibidores - tentou fazer a cabeça de Jorge Furtado, sugerindo-lhe que mudasse o título de Saneamento Básico - O Filme, que estréia hoje em 58 salas de cinco Estados (25 em São Paulo). Ninguém vai ver um filme com esse título, foi o argumento dominante. Considerando-se que há um filme de terror dentro do filme, e bem trash, a contraproposta foi O Monstro do Fosso, ou da Fossa. O título permaneceu. É uma das coisas de que Jorge mais gosta. ''''Há uma contradição flagrante. Saneamento básico não rima com filme, que é uma coisa cara, sofisticada.''''Essa contradição está no centro do novo trabalho do diretor de Houve Uma Vez Dois Verões, O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara. Os dois últimos foram interpretados por Lázaro Ramos e o ator está, de novo, no elenco de Saneamento Básico - O Filme. ''''Virei funcionário da Casa de Cinema'''', ele brinca. ''''Agora recebo por mês.'''' A Casa de Cinema é a empresa de Porto Alegre que surgiu como uma cooperativa formada por Jorge Furtado e seus amigos para tornar viável o sonho de fazer cinema no Rio Grande do Sul. Nos últimos anos, a patota da Casa tem feito muito cinema e TV. A Casa ganha uma homenagem especial no próximo Festival de Gramado, em agosto.''''Vai ser bacana'''', diz Jorge. ''''Nos últimos anos, tínhamos nos afastado de Gramado porque o que menos havia, lá, era discussão sobre cinema. O que importava era o tapete vermelho para os globais. Nesta nova fase (NR - A atual comissão de seleção é formada por Jorge Sanz e José Carlos Avellar), o cinema está voltando a Gramado e nós, também.'''' Não há contradição entre o discurso e a prática de Jorge Furtado. Ele escreve muito para programas da Globo, onde já dirigiu especiais e microsséries. Defende o tipo de TV popular praticado por Guel Arraes, mas não se considera comprometido com o glamour da televisão. Acha que o cinema brasileiro deve seguir pela mesma via. Jorge não quer apontar caminhos para ninguém, mas o dele busca a comunicação popular.Seu paradigma é Umberto Eco. ''''Ele pegou uma coisa completamente erudita, uma trama desenrolada na Idade Média, e fez disso um produto pop, para as massas, em O Nome da Rosa.'''' No dia em que deu sua entrevista ao Estado, Jorge acabara de ler a entrevista de Peter Greenaway que havia sido capa do Caderno 2. Ele discorda do artista inglês - ''''Essa história de que o cinema não tem futuro porque não tem interatividade é uma coisa burra. O game tem interação, a internet tem. O bom do teatro e do cinema é que não têm. O sujeito vai ao teatro e sabe que nada poderá mudar o fato de que Édipo vai matar o pai, fazer sexo com a mãe e terminará se cegando. Partindo desse pressuposto, deve-se buscar, e eu busco, formas de comunicação com o público.''''O cinema do futuro, para ele, será aquele capaz de resgatar culturas ancestrais para as massas, como faz Umberto Eco. Saneamento Básico é repleto de citações eruditas - ópera, livros -, mas Jorge não se preocupa em ser didático, chamando a atenção do público para o que quer que seja. Ele estava interessado em trabalhar com elementos da Comedia dell''''Arte, que é uma herança cultural italiana. No Rio Grande, o legado italiano está principalmente na serra. Sua história se passa nessa pequena cidade que não possui saneamento básico. Um grupo tenta levantar recursos para construir uma fossa. A prefeitura não tem. Mas o Ministério da Cultura oferece, para cidades com população de até 20 mil habitantes, verba para a realização de um vídeo. Fernanda Torres, à frente de um grupo, resolve usar o dinheiro do vídeo para construir a fossa. Mas o vídeo tem de ser feito e apresentado - a lei é clara. Como fazer? Surge o vídeo trash sobre o monstro do fosso, ou da fossa.''''Jorge é o máximo'''', diz Fernanda Torres, que admite que sempre quis trabalhar com ele. Ela compara a experiência da Casa de Cinema à da Tatu Filmes em São Paulo, onde, no começo de sua carreira, fez filmes como A Marvada Carne. ''''Ele trata de assuntos complexos de maneira simples e humorada. É tudo uma questão de saber ver.'''' A essência de Saneamento Básico, segundo ela, é a mesma do curta Ilha das Flores, que deu a Jorge o Urso de Ouro da categoria, em Berlim, e até hoje é a referência para quem analisa a obra do diretor. ''''O País não tem saneamento básico, mas não desiste de fazer filmes. O que a gente devia fazer - parar de fazer filmes para investir em saneamento básico?'''' Lázaro Ramos concorda com ela. Casada com Andrucha Waddington, a atriz diz que Jorge é o menos ''''angustiado'''' dos diretores com quem trabalhou. ''''Filmar é prazeroso para ele e para a gente.'''' Ela confessa que se divertiu. Esse prazer passa para a tela. Vai ser difícil não rir com a performance debochada, até quando quer ser séria, de Fernanda Torres.

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