As cicatrizes de uma escravidão

Revista de História da Biblioteca Nacional propõe debate ''sem retoques'' dos legados dos 120 anos da Lei Áurea

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2008 | 00h00

A capa da Revista de História da Biblioteca Nacional (nº 32, 98 págs., R$ 8,90) apresenta um retrato - do fotógrafo Augusto Stahl - que mostra um escravo negro com o rosto marcado por cicatrizes. Ele é o símbolo da proposta da publicação que, aproveitando os 120 anos da Lei Áurea, faz um debate ''sem retoques'' sobre a abolição. As marcas do tempo não podem ter disfarces ou tons suaves, nesse caso.O especial sobre a efeméride reúne a opinião de oito especialistas, entre eles José Murilo de Carvalho, Lilia Moritz Schwarcz e Nei Lopes, sobre as origens de um processo histórico ''que não terminou''. Os textos colocam em evidência os grandes atores desse evento.No breve ensaio intitulado A Cor da Cultura, o sambista Nei Lopes fala da intensa criatividade cultural de descendentes de escravos no período posterior à abolição até 1920, quando se realizou o recenseamento da população brasileira. Autor de Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, ele cita o mandato presidencial do ''afrodescendente'' Rodrigues Alves como aquele que pôs em prática um programa cultural europeizado. ''Desde a abolição, a elite se empenhava em construir a nação que sempre pretendeu. Nela, a cultura africana e mesmo a presença negra eram indesejadas.'' Mas a realidade mostrou que o ideário racista não prevaleceu de todo, como demonstram a mestiçagem racial e o hibridismo cultural do País.Os descendentes dos escravos buscaram a afirmação por meio de práticas culturais. Nei Lopes dá exemplos em diferentes áreas. Na música Pixinguinha, Paulino Sacramento e Chiquinha Gonzaga. No teatro Benjamin de Oliveira, ''o palhaço negro'', Eduardo das Neves e Grande Otelo. No jornalismo, Francisco Guimarães, o Vagalume, e Zeca Patrocínio.A religião vinda da África preservava elementos míticos alternativos ao esquema explicativo do mundo representado pelo cristianismo. Um panteão de outras divindades ficava à disposição dos brasileiros. As bases do culto aos orixás jeje-nagôs se fortaleceram e difundiram no eixo Rio-Salvador, de acordo com Nei Lopes, por meio da ialorixá Mãe Santinha. Esse seria ''o mais forte traço da africanidade brasileira''. Os batuques bantos recriados no meio rural estavam no amálgama originário do samba.Segundo Nei Lopes, os negros e os mulatos continuam como coadjuvantes na cena cultural de hoje. Essa criatividade é tolhida atualmente pela mídia e pelo mercado - ''que ainda nos querem do jeito que a sociedade brasileira nos queria cem anos atrás''.

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