As aventuras de 4 atrizes e um ônibus

Livro traz história do grupo que fez de um Mercedes-Benz seu palco itinerante

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

27 de fevereiro de 2009 | 00h00

As Graças é o nome do grupo formado por quatro bonitas, talentosas e corajosas atrizes: Daniela Schitini, Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud. A companhia surgiu em 1995, pela união das atrizes recém-formadas, com um trabalho baseado em poesias de Adélia Prado, ponto de partida para que a seguir criassem o infantil Poemas para Brincar - espetáculo de bonecos. Baseado no livro homônimo de José Paulo Paes, ilustrado por Luiz Maia, marido de Juliana, a montagem angariou elogios da crítica e chamou atenção para o trabalho do grupo recém-fundado.Porém, o mais importante foi o aprendizado que elas tiraram desse sucesso inicial, evidente na narrativa emocionada das experiências vividas por elas nas apresentações por diferentes cidades dos Estados de Pernambuco e Alagoas. Foi no ano de 1999 e elas viajaram pelo programa Comunidade Solidária, idealizado pela antropóloga Ruth Cardoso. As apresentações, feitas sob sol forte em pátios de escolas, igrejas e praças, sem microfones, interferiram até na linguagem do espetáculo, antes muito mais intimista. Tudo isso está registrado no livro Circular-Teatro, de Nereu Afonso da Silva, que soube recriar em texto saboroso depoimentos das atrizes e colaboradores da companhia desde sua fundação, em 1995, até o ano de 2008. Bonito, fartamente ilustrado com fotos impressionantes - de espetáculos, paisagens e de gente -, o volume tem 130 páginas e se lê, ora rindo, ora sob comoção, num só fôlego. Por que Circular-Teatro? O objetivo inicial era dar conta da aventura de ter uma sede-itinerante ou ?busão-teatro?, um ônibus Mercedes Benz que as atrizes transformaram em palco - o tal Circular-Teatro. Mas o projeto ampliou-se e a narrativa estendeu-se à trajetória do grupo desde sua criação, passando pelas viagens feitas antes do surgimento do ônibus, pelo aprendizado resultante dos momentos de turbulência nas relações, pelos sucessos e fracassos cênicos. E toca ainda na importância da Lei de Fomento, que permitiu a aquisição do inusitado palco, mas também dos graves problemas acarretados por cortes e atrasos nos pagamentos.Porém, é claro que o ônibus é uma atração à parte nesse livro. Em torno dele brotam situações ora hilariantes, ora comoventes envolvendo desde problemas técnicos até reações surpreendentes da platéia. Afinal, de 2003 até março de 2008 foram 156 lugares visitados, alguns deles mais de uma vez, desde favelas como a do Iraque na periferia da cidade de São Paulo, passando por cidades do interior de São Paulo, como S. José do Rio Preto, até o Nordeste, sempre a bordo do robusto busão. No total foram 251 apresentações para um público estimado em 59, 6 mil pessoas. Haja histórias! Por exemplo, acaba a gasolina do gerador no momento em que as atrizes interpretavam a canção Linda Flor (ai iô iô, eu nasci pra sofrer) e elas ficam sem som, sem luz, sem amplificação. "É um momento de alto lirismo num espetáculo cômico (Tem Francesa no Morro!). Na voz das Graças, transforma a atmosfera da rua, pára o tempo, faz o público cantar junto, é aplaudida em cena aberta", escreve Nereu. Pois justo no Morro do Querosene, famoso por abrigar músicos, o gerador pára. Técnicos saem correndo para comprar gasolina no posto próximo, mas enquanto isso... "Aquele primeiro minuto de silêncio foi daqueles que duram horas. Semanas. Meses. Até que, do nada, um acorde de violão soou no fundo da platéia." E se segue a narração de como os músicos locais Tião Carvalho, Toninho Carrasqueira, Priscila Ermel e Gabriel Nascimento salvaram as atrizes, que puseram fôlego nos pulmões e recomeçaram a cantar no escuro. E o teatroaconteceu em sua plenitude. O livro custa R$ 20 e pode ser adquirido pelo site www.asgracas.com.br.O Que As Atrizes Já Ouviram... GAROTOS:- Ei, cara, chega aí. Tá ligado no ônibus?- O que é que tem?- Porra, cê é otário? Dá uma olhada nas caixas de som, nos fios, naquela mesa, deve valer uma grana.- Cê tá doido? Tá querendo roubar os artistas?- Qual é o problema, cara?- Meu, os caras vêm aqui pra dar show pra gente, fazer teatro e o escambau e cê tá querendo surrupiar a aparelhagem deles? Otário é você, não vem que não tem. Vai cara, área, sai andando e esquece essa ideia de jerico. CRIANÇAS:Agora eu sei o que é teatro: é tipo assim, né? Um parque de diversão! Cheio de coisas, medo, frio na barriga e alegria, né?!Você não é daqui do Nordeste não, né? Ah, então é por isso que não fala na nossa língua?BÊBADO:Óia aqui moça, ocês estragaram t-t-tudo... Eu tava indo pra casa, louco pra dar umas porrada na minha mulé, mas esse t-t-teatro d?ocês me deixou de coração amolecido... agora num vô mais. Ocês estragaram t-t-t-tudo!

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.