Artistas criam no território dos clipes

A relação som, imagem e tempo marca os trabalhos da exposição Comunismo da Forma, na Galeria Vermelho

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Hoje em dia qualquer pessoa pode editar um vídeo ou manipular uma imagem e, além disso, disponibilizá-los para o mundo. O repertório que qualquer pessoa pode ter em mãos é imenso, basta pensar na internet - e principalmente, no site YouTube -, basta pensar na avalanche e repetição de imagens e informações que recebemos diariamente e que por isso, muitas vezes, nos cega e anestesia. Essa é uma constatação banal sobre nosso tempo, mas é a base para a formação do conceito de Comunismo Formal do crítico francês Nicolas Bourriaud. No ''''acelerado contexto histórico'''', artistas podem criar valendo-se de uma inesgotável ''''biblioteca'''': usando um repertório imenso, eles podem alterar e retomar os materiais disponíveis ''''a fim de que novos significados possam nascer, significados que só devem de fato existir a partir da participação do espectador'''', como escrevem Fernando Oliva e Marcelo Rezende, curadores da mostra Comunismo da Forma, que será inaugurada hoje na Galeria Vermelho.Dentro do contexto do Comunismo Formal, os curadores escolheram o território do videoclipe, segundo eles, ''''uma mídia ''''bastarda'''' da TV e do cinema'''': nos últimos tempos, os vídeos musicais deixaram de ser apenas uma narração visual das letras das canções e passaram a ganhar uma autonomia autoral. Mas, principalmente, o clipe, ''''com sua ausência de hierarquia entre o tecnológico e artesanal'''', carrega em si os elementos Som (abarcando mais do que músicas), Imagem e Tempo. ''''É um lugar privilegiado onde o artista pode colocar em movimento os elementos da biblioteca'''', diz Oliva - e vale dizer que a biblioteca também está relacionada à memória do espectador, aos clichês.Há cerca de um ano e meio os curadores lançaram aos artistas participantes (cerca de 40) a proposta de criar obras a partir dessas idéias. Dessa maneira, a mostra Comunismo da Forma: Som + Imagem + Tempo - A Estratégia do Vídeo Musical não se trata, portanto, de ser uma seleção de trabalhos para ilustrar o conceito, mas uma reunião de trabalhos (na maioria inéditos) como resposta à proposta curatorial, como reforça Oliva. Tanto que a iniciativa é formada pela mostra, por um blog e pelo lançamento, hoje, do livro Comunismo da Forma - Som, Imagem e Política da Arte (Alameda Editorial).A exposição, que também será apresentada em Buenos Aires e Toronto, é formada por oito programas de vídeo (um deles, The Black Album, com antologia de obras da suíça Pipilotti Risti), instalações e apresentações de música. Cada obra, autônoma, ou clipe, transforma-se em ''''um comentário da contemporaneidade'''', afirma Oliva. Por meio de apropriações, os artistas criam seus mais diversos comentários que podem ser políticos sem serem o do engajado - mas é curioso como a maioria dos trabalhos se vale de uma forma que carrega o elemento da repetição, seja da música, do som, das imagens, das palavras.Entre as obras, em O Mundo em Que Vivemos o artista Rodrigo Matheus usa do código dos ícones das previsões meteorológicas para falar de um planeta que vai implodir. Ou em La Dolce Vita, como diz Oliva, Naiah Mendonça trata ''''da falência do projeto afetivo''''. Já o Chelpa Ferro em Youclipe mostra uma seqüência de destruições de objetos e aparatos tecnológicos com imagens tiradas do YouTube; ou Dominique Gonzalez-Foerster faz um clipe para canção de Alain Bashung em Climax 4.

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